A genética da vida

por , 8 Maio, 2019

Sabia que o cancro pode estar escrito nos seus genes?

por MARGARIDA MENINO FERREIRA | styling CAROLINA FREITAS | fotografia JOÃO PAULO | maquilhagem e cabelos LEANDRA OLIVEIRA

“A minha nova vida não começou quando me diagnosticaram cancro. Começou quando fiz aquele teste genético”. Assim começou a conversa com Alexandra. Tem 39 anos de idade e acredita ter vivido duas vidas diferentes: uma antes, e outra depois do teste genético. A Alexandra juntam-se Juliana e Helena. As três são família. Perderam a avó nos anos 90, e a tia Júlia em 2004: ambas vítimas de cancro da mama.

“Começámos a pensar se isto seria de família”, começa Alexandra. O teste genético foi, desde logo, aconselhado às mulheres da família. Efetivamente, no caso das três, o cancro era um assunto de família. Alexandra e Juliana são irmãs e a mãe das duas já tinha sobrevivido a um cancro da mama. Descobriram, através dos testes genéticos, que nasceram também elas com uma mutação nos genes BRCA, a mesma mutação que teve a avó e a tia, e que a mãe tem. A prima, Helena, foi a única que, por sorte, escapou às probabilidades.

Os genes BRCA [breast cancer gene] são genes supressores tumorais, explica Gabriela Sousa, médica oncologista: “Quando ocorre a multiplicação das células, essa pode acontecer com erros genéticos. Estes genes [BRCA], estando a funcionar, produzem proteínas que fazem com que essas células, que foram geradas com erros, não se perpetuem e morram. Quando os genes BRCA estão defeituosos, significa que, no organismo, mais células se podem multiplicar com erros, o que poderá dar origem a tumores”. As alterações existentes nos dois genes, BRCA1 e BRCA2, explicam cerca de metade dos casos de cancro da mama e ovário hereditário. Quando as alterações são no gene BRCA1, é mais frequente na família existirem casos de cancro da mama e ovário, enquanto as alterações do gene BRCA2 se associam, muitas vezes, também a outros tumores, como pâncreas, estômago, melanoma, próstata etc. A especialista acrescenta: “As idades em que nos preocupa o aparecimento da doença também diferem. É mais frequente termos casos de doença em pessoas mais jovens, quando em causa estão as alterações do gene BRCA1, e cancro em idades mais tardias quando temos alterações do BRCA2”.

Cerca de 72% das mulheres portadoras de mutações patogénicas no gene BRCA1, e cerca de 69% das mulheres portadoras de mutações patogénicas no gene BRCA2, irão desenvolver cancro da mama até aos 80 anos. No caso do cancro do ovário, cerca de 44% das mulheres, portadoras de mutações patogénicas no gene BRCA1, e cerca de 17% das mulheres portadoras de mutações patogénicas no gene BRCA2, irão desenvolver a doença até aos 80 anos. Contudo, apenas 5% a 10% dos casos de cancro são hereditários.

 

A Evita, a Liga Portuguesa Contra o Cancro, a Sociedade Portuguesa de Genética Humana, a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, a Sociedade Portuguesa de Senologia e a Sociedade Portuguesa de Oncologia e a AstraZeneca lançaram a campanha “saBeR mais ContA”, que irá decorrer até outubro, mês de sensibilização para o cancro da mama.

Neste sentido, a campanha contará com a realização de três sessões de esclarecimentos, dirigidas a doentes e familiares, com médicos especialistas e testemunhos sobre “As mutações genéticas BRCA e o cancro”, com a primeira a acontecer no dia 17 de maio, pelas 15h00, no IPO de Coimbra, e a segunda, a 30 de maio, à mesma hora, no IPO do Porto, esta última transmitida por livestreaming nos sites e páginas de Facebook da Evita e da LPCC.  

Para além destas sessões, a campanha “saBeR mais ContA” terá ainda uma exposição fotográfica, com testemunhos de famílias onde houve diagnóstico de cancro da mama e/ou ovário, associados à mutação BRCA, e outros que realizaram o teste genético. Esta exposição estará no Alma Shopping, entre 9 a 20 de maio, seguindo para o Porto, para a estação da Casa da Música do Metro do Porto, de 20 a 31 de maio.

A campanha chega a Lisboa no mês de outubro. 


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