Alice Vieira: “Não escrevo segundo o que gostam”

por , 23 Abril, 2018

Para celebrar o Dia Mundial do Livro, conversámos com Alice Vieira. Aquela que é uma das autoras portuguesas mais lidas, assinala, em 2019, 40 anos de carreira, com dezenas de títulos publicados para diferentes públicos e em diversos géneros literários. No final, ficámos com uma certeza: a autora não tenciona abrandar.

POR: Xavier Pereira

Neste Dia Mundial do Livro, conte-nos, como olha para a produção literária feita hoje em dia?

No geral, penso que há muita gente a escrever. Toda a gente quer publicar alguma coisa. Não importa se paga ou se lhe pagam. Isso faz com que haja coisas que são muito boas e, outras, muito más. Não há critério. Publica-se muito, mas, por outro lado, acho que se lê menos.

 

Tem essa perceção?

É estranho. Talvez se leia noutros suportes, mas um livro é um livro. Apesar disso, felizmente, continuam a aparecer coisas muito boas. Na produção infantojuvenil, não me parece que tenha aparecido muita gente nova e parece-me que se repete a receita. Coisas inovadoras, e de que se goste, não aparecem. Acho que se dá mais importância ao álbum [texto e ilustração], do que ao texto. Acho que a produção literária para crianças é melhor. Para jovens, não me parece que tenha existido grande novidade.

 

Prestes a celebrar 40 anos de carreira, ainda tem histórias para contar?

Temos todos! Sou jornalista. Nós temos sempre histórias para contar. Não é isso que me aflige. Vamos sempre ter histórias, porque a esmagadora maioria tem a ver com a realidade e isso dá-nos sempre pano para mangas.

Toda a gente quer publicar alguma coisa. Não importa se paga ou se lhe pagam.

 

Assim sendo, o que é que a aflige?

Aflige-me ver menos leitores, mas não penso muito nisso. Enquanto me der prazer escrever, enquanto tiver histórias e enquanto tiver uma editora que me edite, vou trabalhando e esperando conseguir fazer coisas novas. Há algo engraçado: os miúdos leem livros meus escritos há 40 anos e nem notam. Ter atravessado estas gerações é o que mais me espanta.

 

Tem essa consciência, de que, hoje em dia, atravessa gerações?

Claro que tenho! (Risos) Há uns tempos, fui a uma escola e um rapaz pediu-me para lhe autografar um livro. Reparei que era um livro muito usado. Eu gosto muito disso e comentei com ele. Qual não foi o meu espanto quando ele me diz que o livro tinha pertencido à avó dele! (Risos)

 

Que conselhos dá a jovens escritores?

(Risos) Não gosto nada de dar conselhos! Sabe… passei sete anos no Liceu Filipa de Lencastre, e ainda hoje me lembro do que dizia um quadro que estava lá preso, a uma parede. Dizia: «nunca dês conselhos, se forem bons, esquecem-se logo; se forem maus, culpam-te toda a vida». Por isso, quando me fazem essa pergunta, o que digo é: se a pessoa gosta muito de escrever, o único conselho é que escreva! Escrever é uma profissão. Tem de se escrever sempre. Também é preciso ler muito e ter muita paciência. Nada sai bem logo à primeira. É preciso deitar muita coisa fora, até se encontrar o que a gente quer. Ter jeitinho, ajuda. Não ter pressa ajuda muito. Os miúdos de hoje acham isso estranho.

 

É uma das principais autoras de literatura infantojuvenil e isso faz com que se mantenha perto das camadas mais jovens. O que gostam de ler os mais novos, hoje em dia?

Não escrevo segundo o que gostam. Escrevo segundo aquilo de que eu gosto. Digo que sou egoísta na minha escrita. Faço-o sem pensar nas reações que vou provocar. Acho que isso resulta sempre mal. Odeio a expressão “a criança que há em mim”. Sou adulta! Falo do tempo que é meu e que também é deles. Por isso é que se sentem integrados. Se falar de música num livro, não vou pôr músicas de há 40 anos. Não escrevo nada para lhes piscar o olho.

 

Se a pessoa gosta muito de escrever, o único conselho é que escreva!

 

E se um jovem lhe pedir sugestões de livros, o que lhes aconselharia?

Custa-me sempre muito dizer isso. Acho que devo a minha paixão pela literatura aos muitos livros maus que fui encontrando. Por isso, sou incapaz de dizer a alguém que aquilo não presta, porque nunca sabemos onde o livro nos toca. O que costumo dizer é: se não gostas, larga e escolhe outro. É a própria pessoa que tem de descobrir. Mesmo dos meus títulos é difícil. Aplica-se a toda a gente. Crianças ou adultos.

 

Lançou recentemente Olha-me Como Quem Chove, um livro de poesia. Como surgiu?

É o meu quarto livro de poesia. É completamente diferente de tudo o que faço. Poemas são a única coisa que escrevo à mão. De resto, escrevo tudo em teclado. Quando penso na minha escrita de poesia, acabo sempre a achar que, se tivesse pensado bem, assinava os meus poemas com um heterónimo.

 

Porquê?

Porque o processo é diferente, tem pouco a ver com o resto das coisas que escrevo. O meu primeiro livro de poesia foi publicado há sete ou oito anos. Escrevo quando acho que me apetece e quando me começa a surgir na cabeça. Os outros, não. É um processo completamente diferente. É algo que se vai construindo. Às vezes, até posso escrever vários de seguida, mas tem-se outra estrutura mental. Não há prazos nem limites.

 

O livro tem um mês nas bancas, já pensa no próximo? O que pode desvendar?

Em termos de poesia, não tenho nada planeado. Sigo o conselho da minha querida amiga Rosa Lobato de Faria: quando acabamos o livro de poesia, deitamos fora tudo o que não aproveitámos. Posto isto, neste momento, não tenho nenhum poema escrito. Deitei tudo fora!

 

Sou incapaz de dizer a alguém que aquilo não presta, porque nunca sabemos onde o livro nos toca.

 

E além da poesia?

Neste momento, tenho uma biografia da Condessa de Segur que me esta a dar muito trabalho e, atenção, eu gosto disso. Depois, tenho colaborações que mantenho.

 

Para finalizar, diga-nos: como vai celebrar este Dia Mundial do Livro?

É a minha profissão, por isso, e valendo-me do cliché: todos os dias são Dia do Livro. Ainda não confirmei a agenda, mas de certeza que tenho escolas ou bibliotecas onde ir. A minha agenda assusta-me, só de olhar para ela! Uma coisa é certa: anda sempre à volta dos livros.

 

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