Ângela Querido: “A expressão “barriga de aluguer”, em Portugal, é algo insultuosa para quem tem este gesto. Não estamos a fazer uma transação.”

por , 21 Maio, 2018

Ângela Querido tem 31 anos, é mãe de três crianças (11, 8 e 3 anos) e vai ser gestante de substituição. Viveu três gravidez saudáveis, que correram dentro da normalidade, e todos os filhos nasceram de parto normal. João, o marido, 38 anos, apoia-a. Não gostam da expressão “barriga de aluguer”, até a acham ofensivo. “Porque pressupõe que há um pagamento. E nós não vamos receber dinheiro”. O que leva uma mulher a emprestar o seu corpo, durante 9 meses, a um casal que mal conhece?

POR PAULA RAMOS | FOTOGRAFIA RUI VALIDO | MAQUILHAGEM E CABELOS TATIANA CRUZ

CRISTINA – Ângela, como é que tudo começou?

ÂNGELA QUERIDO – Tudo começou no dia 2 de agosto do ano passado, quando vi a notícia na página de Facebook da Associação Portuguesa de Fertilidade (APF), que tinha dado entrada ao primeiro pedido de gestação de substituição, no Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA), e que seria uma avó que queria gerar o neto, porque a filha, por razões clínicas, não podia gerar. A minha intenção para entrar neste mundo foi, precisamente, partilhar informação. Eu dizia, no meu comentário, que gostaria de ajudar de alguma forma, mas toda a informação que se encontra online ainda não é muito explícita. Passados uns dias, recebi uma mensagem de uma mulher, que se identificou e me disse: ‘Eu vi a sua publicação na página da APF e gostaria de lhe dar algumas informações’. Ela apresentou-se, contou-me a sua história e disponibilizou-se a dar todas as informações de que eu precisava. A partir daí, começámos a conversar.

  1. – Essa mulher, portanto, não pode ter filhos e procura uma barriga de aluguer?

A.Q.- Procura uma gestante substituta. A expressão “barriga de aluguer”, em Portugal, é algo insultuosa para quem tem este gesto. Porque a lei diz que não pode ser feito um pagamento. Não estamos a fazer uma transação. É um ato de bondade, um ato altruísta. E o aluguer pressupõe que vai haver um pagamento. Não vou receber nada

  1. E essa é uma decisão que a Ângela já tomou?

A.Q. Sim.

  1. E já pensou em tudo o que isso envolve?

A.Q.Já pensei em tudo. (Risos) Vai ter de ser uma fertilização in vitro, em laboratório, e depois terei de passar por uma inseminação artificial. Possivelmente, terá de haver um período de repouso, para o embrião conseguir pegar no útero. Depois, é esperar que os testes deem valores positivos, que têm de dar, até para confirmar que, de facto, há uma gravidez.

  1. E, nesse processo, será acompanhada pelos pais biológicos?

A.Q. Vai tudo depender do tipo de acordo que as partes façam. No meu caso, faz todo o sentido que os pais estejam presentes em todas as etapas do procedimento, seja na primeira consulta ou no que tiver de ser. Desde que os pais queiram estar presentes, eu faço todo o gosto que estejam. Porque, para mim, não faz sentido que eles não acompanhem. Afinal, é o filho deles.

  1. Há pouco falávamos de quando viu as primeiras ecografias dos seus bebés e da emoção que sentiu ao ouvir, pela primeira vez, o bater do coração do bebé. Não tem receio de olhar para a ecografia daquele bebé, que é daquele casal, ou do que poderá sentir, ao escutar o bater do coração daquele bebé?

A.Q. (Risos) Não.

  1. – Porquê?

A.Q. Porque sei, à partida, que aquele bebé não é meu. Obviamente, vou ficar contente por ver e ficar feliz por ouvir o coração dele. Estou a gerar uma vida. Mas o que está lá, no fundo da meta, é a felicidade daqueles pais e, também, do resto da família. A felicidade que eles vão sentir também põe, um bocadinho, de parte o meu egoísmo pessoal. Vou amar, vou dar o carinho que me compete dar, mas não posso ser egoísta ao ponto de dar demasiado e de me apegar demasiado a uma criança que eu sei que nunca será minha. Não tem o meu código genético, não tem o meu sangue, não tem qualquer característica minha. Não partilha de coisas que os meus filhos partilham. E, quando eu tomei a iniciativa de me oferecer como gestante, já sabia disso tudo e nunca foi um impedimento.

  1. – O que é que a move?

A.Q. Move o facto de saber que vou conseguir dar a felicidade a um casal e a uma família inteira. A uma avó ou a um avô que, de outra forma, não poderiam ter um neto nos braços. Aqueles pais poderem embalar um bebé à noite, para ele adormecer. Poder alimentá-lo. Poder carregá-lo. Eu já tenho os meus. Eu já sei como foi. E foi bom. Foi muito bom. (Risos) Foi uma experiência maravilhosa. Quero que aquele casal tenha essa experiência. Eu também quero que eles sintam o amor incondicional, tal como eu sinto pelos meus filhos. E isso anula tudo o resto.

  1. Acha que não vai criar uma relação com aquele bebé? Afinal, estará nove meses na sua barriga.

A.Q. É possível que aconteça. Porque somos mulheres. Somos pessoas de afetos. É óbvio que vamos conversar, que darei carinho, que vou acariciar a barriga. Certamente, vai criar algum tipo de relação. Só uma pessoa muito bem resolvida, com ideias muito fixas e com filhos já crescidos, consegue passar por este processo. Não é toda a mulher que o consegue.

 

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