AS FILHAS DA MÃE | SEXO AO PODIO

por , 26 Junho, 2017

Gosto do desafio de falar sobre sexo. É quase tão tabu como a morte, mas dá muito mais prazer. 

CRÓNICA
POR: ISABEL SALDANHA

O sexo é uma corrida de fundo ao fundo. E o mais encantador no sexo é que ele parte connosco na aventura da maturidade. Nasce imberbe e desajeitado, torna-se voraz e impertinente, como uma criança, atinge o seu falso expoente máximo na hipérbole da juventude, onde se dá e se sacia incansável, como se fosse uma lua cheia que parece não terminar. E quando começa, finalmente a dominar o tempo na obtenção de um prazer mais sólido, torna-se em absoluto “mais jovem”. O sexo pode ser vivido como uma modalidade amadora, cheio da paixão efémera de quem joga no conforto da casa, mas jamais terá a medalha de ouro de quem joga nas Olimpíadas, na quimera mais elevada do amor. Por muito piroso que soe. E se soa piroso, talvez provenha do desmazelo com que atiramos ao desprezo alheio as coisas que ambicionamos, sem as conseguir dominar. Há orgasmos em todo o lado, como vinho na prateleira de um hipermercado.
Mas é numa relação de amor que se sente o cuidado com que envelheceu, soberano, numa barrica de carvalho. É no amor que a rolha se tinge de negro, que pinta, que marca e que tatua o palato, com o cuidado premeditado de quem envelheceu inteiro para aquele momento. É na maturidade da pele, tantas vezes tocada, que se pressente o verdadeiro calor do toque. É nesse ringue de entrega que se dá o “corpo ao manifesto”, porque não há manifestamente medo nenhum ali.

O amor é o maior lubrificante do sexo e o seu preliminar mais infalível. Quando se ama alguém, e quando se pode amar fisicamente esse alguém, não há idade, estado ou matéria que impere sobre a entrega. Os dois corpos viram tochas, a degustação vira fogo lento, a alma sobe ao cúmulo olímpico, e o que se estende sobre nós estará sempre, muito além do prazer de uma medalha.

Esta crónica foi publicada originalmente na edição de Abril.
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