Cândida Pinto: «Não me apetece ser uma heroína que não volta para contar a história»

por , 21 Agosto, 2019

Repórter de guerra, Cândida Pinto está desde 1992 a mostrar-nos o mundo e os seus conflitos. Luís Pedro Nunes escolheu falar com a jornalista que corre riscos por curiosidade, por acreditar que o jornalismo conta a história do Outro.

por LUÍS PEDRO NUNES fotografia PEDRO SACADURA maquilhagem LEA MAGUI LOURO cabelos ELSA JULIO

LUÍS PEDRO NUNES – Antes de mais, obrigada por teres aceitado este convite. Quando me pediram para escolher uma mulher que eu quisesse entrevistar, imediatamente pensei em ti. Já nos conhecemos há quase 30 anos. E, ao contrário dos homens, tu tens gabarolice. Quero começar por te perguntar se há algum glamour em ir numa reportagem de guerra.

CÂNDIDA PINTO – Depende de como se olha para isso. Para já, acho que foste muito generoso em escolher-me, porque não estava nada à espera e já nos conhecemos, de facto, há muito tempo e já estivemos nestas situações difíceis juntos, para sítios diferentes, mas em simultâneo a passar pelas mesmas coisas. Olham para as pessoas que aparecem na televisão, em sítios exóticos ou perigosos, e atribuem-lhe algum glamour. O que está por trás não tem qualquer glamour /não tem nada de glamoroso. Normalmente, são trabalhos e situações muito difíceis, em que nós temos de tratar de uma série de coisas. Temos de garantir o trabalho, que é o que nos faz estar ali, a reportagem, e, depois, temos de garantir tudo o resto, que, em circunstâncias normais, nós damos por adquirido. Por exemplo, que o sítio onde vamos dormir seja seguro, onde as coisas funcionem, que haja energia elétrica, que haja água e alguma segurança. Muitas vezes, viaja-se com muito dinheiro e com equipamentos que são caros e há, também, a preocupação a esse nível. E, depois, a nossa própria segurança. Não me apetece ser uma heroína que não volta para contar a história.

L.P.N. – Vê-se muito disso, nesses sítios?

C.P. – Sim. Vê-se muitas pessoas que se envolvem em situações que, às vezes, são demasiado perigosas. Nós também conhecemos muitos colegas nossos que tiveram muitos problemas difíceis; alguns morreram e eram pessoas altamente preparadas e com muitos anos de tarimba.

L.P.N. – Vamos a coisas simples que as pessoas nem imaginam. Por exemplo, fazer as necessidades. Comer comida que não nos provoque distúrbios, ter água potável. Essas coisas, por vezes, tornam-se quase obsessões.

C.P. – E, muitas vezes, acontece estarmos a fazer uma reportagem e passarmos por um sítio onde vimos garrafas de água fechadas, à venda, e peças de fruta e compramos logo, porque sabemos que nos vai fazer falta.


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