Carminho: «Jobim tinha alma de fadista»

por , 28 Novembro, 2017

Durante este mês, a fadista de 33 anos, anda pela Europa a cantar os versos de Tom Jobim. Tem sido acompanhada pelos músicos que tocaram com o artista nos seus últimos dez anos de existência e é, com eles, que vai atuar a 30 de novembro na Altice Arena e a 2 de dezembro no Multiusos de Guimarães. Datas em que contará, também, com a presença de Marisa Monte. Uma oportunidade única de voltar a testemunhar o génio de Jobim e o talento sem medida de Carminho.

Por: Xavier Pereira

Como é que tem corrido esta oportunidade cantar as canções de Tom Jobim?

Tem sido maravilhoso! É uma grande aprendizagem. Acho que existe uma Carminho antes e outra Carminho depois deste disco. Acho que isso acaba por acontecer com todos os álbuns, mas com este foi de uma forma especial. Houve uma aprendizagem de uma linguagem que não é a minha, onde também tenho de me adaptar e ser honesta com a minha forma de cantar e com a minha linguagem.

Como é que surge este disco?

Surge de uma forma muito engraçada e que está relacionada com o facto de eu ir muitas vezes ao Brasil, por causa de algumas participações nos meus discos anteriores e de muitos concertos. Nessas viagens, aconteciam muitos encontros com muitas pessoas. Foram momentos que foram dando lugar a encontros mais pessoais, jantares e cantorias. Numa dessas cantorias, em que estavam várias pessoas amigas a cantar, eu comecei a dizer uns versos de Tom Jobim, que era algo que eu já fazia em casa, desde adolescente, em frente ao espelho. Naquela noite, eu estava a cantar com o meu sotaque português, e estava lá a Ana Jobim, mulher do Tom Jobim, viúva, que me disse “Carminho tens de fazer um disco do Tom”. Lançaram-me assim uma espécie de desafio que, na altura, eu achei que tinha sido um entusiasmo inicial…

Mas que, afinal, era algo sério. Durante este mês de novembro, estas canções estão a ser, também, um bocadinho mais do público, em 10 datas especiais.

Exatamente.

Datas que terminam com dois concertos, também eles especiais.

Sim… Depois do disco acabado, e de termos ficado felizes com o resultado, pensámos que era bom colocar este álbum ao vivo. Fizemos quatro concertos, no Brasil, e correu muito bem. Foi muito emocionante ver aquele disco ganhar vida e a ser tocado por aqueles músicos incríveis, que são aqueles que acompanharam o Tom Jobim nos seus últimos 10 anos.

E que são aqueles que te voltam a acompanhar nestas datas pela Europa, incluindo nos concertos em Portugal, certo?

Isso mesmo, é o que volta a acontecer. Resolvemos fazer uma tournée única e irrepetível, porque é muito difícil que isto volte a acontecer. Tornamo-la, realmente, exclusiva e única. São dez datas que não se repetem e que vão representar e imortalizar este momento que aconteceu.

Neste processo, houve quem não conhecesse Jobim e só tivesse contacto com as suas canções através deste disco?

Algumas pessoas, talvez. Houve uma pessoa que me disse isso. Eu acredito que existam outras a quem isso possa acontecer.

Sentes essa responsabilidade de apresentar, a quem não conheça, esse tal compositor que dizes que é um dos melhores do século XX?

Não é uma responsabilidade, mas acho que é gratificante. Eu também conheci alguns compositores através de interpretações de outros cantores. Isso levou-me a conhecer mais autores, muitas vezes, de outras épocas. Acho que isso é uma forma de levar os compositores que são bons e merecem ser ouvidos até às gerações futuras. Não é, no entanto, essa a pretensão deste meu trabalho.

Cantá-lo com a ajuda dos músicos que o acompanharam nos últimos anos, com a ajuda da Maria Betânia, do Chico Buarque e da Marisa Monte, é ainda mais gratificante?

Eles foram fundamentais. Todos. Os músicos da banda são os maiores experts da música do Tom Jobim. Conhecem-no muito bem e dominam a sua linguagem. Assim não há margem para que isso seja desrespeitado. Eu também exijo esse respeito pelo Fado. É uma frase um bocado forte, mas quer dizer que o respeito que eu sinto pelo Fado, quero que eles sintam pela música deles e quero fazer-lhes passar a ideia de que os respeito. Talvez se eu não fizesse o disco com estes músicos, talvez nunca o fizesse. Teria um certo pudor. Assim, pude ser livre.

Em palco, o que podemos esperar?

Podemos esperar esta cumplicidade que temos vindo a construir.

O disco é composto por 14 músicas, mas acredito que existam surpresas a ser preparadas.

Sim, os concertos contam com as músicas do álbum e com outros fados meus. Poucos, mas que representam algumas pontes. Nos dois concertos que estão agendados para Portugal, vou ter a Marisa Monte e, com ela, vamos cantar o tema que faz parte deste disco, mas também alguns temas que temos vindo a fazer ao longo do tempo e que são inevitáveis e incontornáveis. Não conseguimos chegar e cantar uma música só. Na verdade, não é preciso inventar muito porque já lá estão as canções. Vai ser especial porque vamos poder dar aos portugueses mais um bocadinho desta história que nasceu e foi construída no Brasil, mas que queremos trazê-la até cá. Primeiro na forma de disco, depois em concerto.

Nos últimos anos já subiste ao palco da Altice Arena, mas nunca em nome individual. Estás ansiosa pelo dia 30 de novembro?

Estamos a fazer tudo para que seja um momento mais íntimo e aconchegante, para que as pessoas estejam perto de nós, sensorialmente falando, que oiçam bem e que se sintam confortáveis a ouvir esta música.

É a maior sala do país. Achas que pode ser estranho, para quem te acompanha, que, de repente, estejas a tocar naquela sala? Achas que vão de pé atrás, a pensar que a intimidade do Fado se pode perder?

Há sempre esse receio. Acho que é legítimo. Nesses lugares maiores, não se consegue sempre garantir as condições, mas nós estamos a trabalhar para que seja um momento íntimo. É o único lugar que podia acolher esta noite. Quisemos fazer uma data única e, por isso, é que será neste lugar maravilhoso.

Falaste sobre as constantes idas ao Brasil. Já te sentes em casa, nesse país?

Já, já. É um lugar de muitos encontros e rotinas. Já tenho amigos com quem preciso de ir ter. Já há lugares onde vou de forma natural. Sinto-me em casa, sobretudo no Rio de Janeiro.

Tom Jobim tinha alma de fadista?

Ai não sei. Acredito que sim.

Conheceste-o mais a fundo ao longo do último ano…

Sim, acho que sim, que tinha alma de fadista. Ser fadista tem a ver com uma certa nostalgia e uma certa profundidade no tratamento dos sentimentos, de não os esconder e de os encarar. Tom Jobim foi isso. Um homem desperto, com uma sensibilidade grande, de muita espontaneidade, que tinha urgência de compor, de se juntar com poetas. Lá no fundo, havia uma nostalgia, uma intensidade e uma sensibilidade que identifico na forma como os fadistas e os portugueses são.

Já falámos desta tournée que está a decorrer. O que é que se segue?

Depois… Já estou a pensar em mais coisas.

E queres dizer o quê?

Ando a pensar no reportório do meu novo disco. Ando a compor e a recolher reportório de outras pessoas. Ando a tentar perceber em que momento é que estou. É isso que gosto e que faz sentido para mim. Cada disco representa o que sou e como estou naquele momento. Há coisas que deixam de fazer sentido cantar, há coisas que passam a fazer sentido. Está sempre em mutação, portanto, é nesse processo que estou, para algo que espero que surja lá para 2018.

Fotografias retiradas do Instagram: @carminho
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