Carta à Liberdade 

por , 25 Abril, 2018

No dia em que celebramos a revolução dos cravos, desafiámos a jornalista, escritora e consultora da revista CRISTINA, Patrícia Reis, a dedicar-lhe algumas palavras. Se tivesse oportunidade de fazer perguntas à Liberdade, quais seriam? 

POR: Patrícia Reis

Cara Liberdade,

Onde estás tu? Eu, que sou da geração que não fez o 25 de Abril, nasci e estava fadada à ditadura. Sou uma cidadã portuguesa, a viver com o pressuposto de quem já foi embalado nos teus braços, para todo o sempre. Afinal, creio que me enganei.  

A minha Liberdade está longe da euforia da conquista de Abril, dos ideais cantados por tantas vozes poderosas, pelas ideias que iriam mudar o país.

Não me interpretes mal, Liberdade, é evidente que a democracia é incomensuravelmente melhor do que qualquer ditadura, acontece apenas que ainda existem situações de aprisionamento, de condicionalismo, de vigilância. Ainda estamos sujeitos a espartilhos que, não sendo produto de uma polícia política, são, na verdade, ecos de vozes moralistas, de uma fiscalização de terceiros, que surgem em crescendo por aí, em acusações e julgamentos.

A minha Liberdade é ameaçada quase todos os dias, por ser mulher, por ter a idade que tenho, por ter feito um percurso assim ou assado. Sim, conquistámos montanhas, andámos quilómetros em mais de 40 anos. A revolução foi bonita, pá, não foi, no entanto, maravilhosa para todo o sempre. Talvez o mal esteja nas pessoas. São as pessoas que se acomodam às ditaduras, são as pessoas que definem as democracias.

Penso em ti, Liberdade, como quem pensa num objetivo máximo. Ser livre para ser quem sou, para dizer o que quero, para fazer o mesmo que qualquer outro dos meus pares, homem e mulher, com igualdade, paridade, com as mesmas condições, a mesma renumeração. Dirás que estou a ser ingrata, que as mulheres são hoje mais livres. Tens razão. Eu sou ambiciosa: quero mais. Não te ofendas, não?

 

Fotografia: ANA/FLICKR
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