CATARINA CORUJO: “Quando eu me aceito, liberto-me do peso de precisar que os outros me aceitem”

por , 25 Abril, 2019

Aos 31 anos de idade, aceitou-se como é: grande e bonita. Quer mostrar que todos os corpos são diferentes e não há nisso qualquer mal. Conheça esta mulher e celebre com ela a liberdade.

por XAVIER PEREIRA Realização CAROLINA FREITAS fotografia JOÃO PAULO maquilhagem LEA MAGUI LOURO cabelos ELSA JÚLIO

CRISTINA – Como te sentiste durante esta sessão fotográfica?

Catarina Corujo – Desafiada é a palavra certa.

C. – Como foi quando te fizemos o convite?

C.C. – Inicialmente, fiquei muito apática. Não julguei, porque sabia que não seria algo vulgar. Tinha essa segurança, mas tive, ao mesmo tempo, de decidir se me expunha desta forma ou não.

C. – E porque decidiste avançar?

C.C. – Porque o meu percurso trouxe-me aqui. Um percurso de aceitação e conforto com o próprio corpo

C. – Como tem sido esse percurso?

C.C. – Não posso dizer que tenha sido fácil, mas é muito gratificante.

C. – Por que fases passaste?

C.C. – Desde sempre que me lembro de ser catalogada como gorda. Isso como sendo algo mau: uma premonição de que ia sofrer enfartes, ataques cardíacos, que não ia aproveitar a vida, não ia ter sucesso no meu trabalho e que a aparência do corpo era muito importante. Sempre vivi nesta base e acabei por tentar contrariar sempre o que o meu corpo era, mas, na altura, não era! Eu tinha uma visão completamente deturpada. Agora, olho para fotografias antigas e noto que não tinha um corpo disforme.

C. – Porque sempre foste grande.

C.C. – Sim, sempre fui grande. Muito alta e proporcional. No entanto, sempre vivi com o pensamento de que tinha de mudar e só seria feliz e aceite na sociedade quando pertencesse ao padrão.

C. – O que é que fizeste para pertencer a esse padrão?

C.C. – Mil e uma dietas. Todas sabotadas por mim, inconscientemente. Por muita força de vontade que se possa ter, tem de existir um propósito para conseguir realizá-la. Na altura, o propósito não era meu, era dos outros. Eu seguia o que achavam que eu devia ser. Vivi constantemente com este tipo de pensamentos. Passei por uma fase mais depressiva, na qual engordei 30 quilos. Aí, sim, fiquei com o meu corpo disforme. O meu corpo pode ser torneado, grande, mas era proporcional, até àquele momento. Eu consigo fazer esta análise. Foi todo este processo que me ajudou a chegar aqui. Hoje, olho para o corpo que tinha há 15 anos e acho-o bonito. Na altura, não o achava.

C. – E, hoje em dia, o que achas do teu corpo?

C.C. – O meu corpo é o meu lar.

C. – E como te sentes nesse lar?

C.C. – Cuido dele.

C. – Como?

C.C. – Com alimentação. A alimentação que tenho agora vai ao encontro do equilíbrio que quero ter, perante os distúrbios alimentares por que passei.

C. – Quais é que foram?

C.C. – Compulsão associada à restrição e bulimia.

C. – Em relação à tua alimentação: que cuidados tens?

C.C. – Tanto como porcarias como adoro a comida dita saudável. Neste momento, olho para a comida como não sendo a minha inimiga. Antes, tanto era a minha amiga do conforto, como era a minha inimiga associada à culpa. Neste momento, olho para a comida como algo normal. É comida. Antigamente, dava demasiado valor. Só pensava naquilo. Pensava em comer, ou no que comi, ou no que tinha de deixar de comer. Agora, não. É hora de comer e eu como. Se me apetecer comer algo que seja “não saudável”, eu como. Tento não ligar a culpa a esse ato. Era isto que me deixava mais frustrada. Eu comia sem pensar e, depois, sentia-me culpada.

C. – Atualmente, segues algum plano alimentar, ou és acompanhada?

C.C. – Não. De todas as dietas que fiz, aprendi muito em todos os processos. Há umas mais equilibradas que outras. Sei reconhecer quais os alimentos mais nutritivos e os menos. Já houve fases em que contei calorias e macronutrientes. Sei que, para o meu equilíbrio, se passar uma semana a comer porcarias, me vou sentir mal. Tenho de ter uma alimentação equilibrada. Anteontem comi uma francesinha, por exemplo. Hoje, almocei uma poke bowl de salmão com algas, que me soube super bem. A minha alimentação resume-se a um equilíbrio associado à intuição. Tenho de ter noção de quando estou cheia, de quando estou a exagerar, de quando não estou a tomar atenção às quantidades. Isso é a compulsão.

C. – Além da alimentação, fazes desporto?

C.C. – Não. Sempre frequentei ginásios e tive muitos planos desportivos. Entretanto, percebi que o exercício que eu tenho de fazer é manter-me ativa a fazer o que gosto. Às vezes, faço exercício em casa, a dançar, no meio da sala. Cada vez mais quero manter-me ativa.

C. – Sentes que o facto de gostares de te manter ativa acontece por, atualmente, começares a gostar do teu corpo?

C.C. – À medida que vou conhecendo o meu corpo, estou a apaixonar-me por ele. É um processo. Não posso dizer que a aceitação do corpo tenha um dia certo para acontecer. É um processo diário.

C. – E como é o teu dia a dia? Quem é a Catarina?

C.C. – É uma sonhadora que adora maquilhagem, uma paixão que surgiu quando ganhei os tais 30 quilos e entrei na fase depressiva. Acabou por ser um refúgio. Fiz todo o meu percurso de faculdade, com um curso em Línguas. Trabalhei na área durante quatro anos, até que percebi que não queria que a minha vida fosse passada fechada num escritório a fazer, de forma mecânica, as mesmas coisas e nunca ter o devido reconhecimento. Além disso, percebi que era muito mais eu própria quando trabalhava em coisas de que gostava.

 


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