Consultório | Pergunte ao Dr. Quintino

por , 26 Março, 2019

“Antes de ser mãe já o ouvia com atenção, para saber lidar com os meus filhos um dia, quando os tivesse. Já sou mãe, de um menino que está quase a fazer um aninho, mas o motivo de lhe escrever não tem a ver com ele mas sim com o meu marido. O nascimento do nosso filho foi conversado, pensado e planeado pelos dois. E o nascimento dele foi uma alegria para os dois. Mas comecei a perceber que o meu marido tem ciúmes do meu filho. Eu já desconfiava, mas fiquei com certeza quando noutro dia interrompi uma conversa nossa, sem grande importância, porque estava cansada. Ele reagiu mal e ainda disse que então fosse ver como estava o menino, que certamente precisava mais do que ele da minha atenção. Parecia estar a acusar-me de eu ter mais disponibilidade para o meu filho do que para ele. Estou muito feliz por ser mãe. Muito mesmo. Mas também não quero perder o meu marido, que sempre foi um excelente companheiro. Diga-me, por favor, o que devo fazer para ultrapassar os ciúmes dele e ficarmos bem os três.

A relação humana não é nada fácil. É fundamental para o nosso bem-estar físico e psicológico, mas como é bastante complexa, rapidamente se torna frágil e pode perder-se. Mesmo quando se trata de uma relação entre pessoas que gostam muito uma da outra. Tratando-se de uma relação de três pessoas, uma mãe, um pai e um filho, é ainda mais difícil, e é preciso estar vigilante no que respeita às dinâmicas que se formam e se reformam rápida e quase espontaneamente. Com muita facilidade dois se associam por um vínculo mais forte, ou parece que assim é, e o terceiro sente-se posto de parte. Para evitar esta dinâmica, tantas vezes observada nas nossas famílias, é muito importante que o casal tenha uma ideia bem clara quanto ao papel de cada um dos três elementos, na família. É preciso terem os dois consciência de que são eles a base da unidade, e que o filho, este e todos os que vierem, são muito amados e acarinhados, mas aparecem sempre depois da união daqueles dois, precisam do suporte que a união dos dois, mesmo que separados ou divorciados, proporciona para o seu desenvolvimento, e terminado este seguem o seu caminho. Mas infelizmente na nossa sociedade os papéis de marido e de mulher não estão ainda muito claros. Ainda não entendemos bem o que é o casamento, e por isso tantas vezes se repetem as violências absurdas, as separações e os divórcios absolutamente desnecessários, ou mesmo ao contrário, permanecendo num casamento que só  faz mal aos dois. Com toda esta dificuldade em entender e consciencializar a ideia de casal, muitas vezes a chegada de um filho, acompanhada por uma absoluta dependência de cuidados, por parte deste, faz com que o pai entenda esta maior atenção da mãe, para com o filho, como uma espécie de abandono face a ele. E de certa forma a verdade é que muitas vezes a mulher se distrai e, na alegria com a existência do filho e a necessidade de atender à demanda de cuidados deste, realmente se esquece do marido. Se o assunto for conversado entre os dois, ultrapassa-se rapidamente; de contrário, o que se observa, muitas vezes, é um afastamento emocional e afetivo cada vez maior. E todos perdem. A mulher e o homem, porque a relação amorosa é fundamental para o nosso bem-estar físico e psicológico; a criança, porque, quando assim acontece, a mãe prende-se demasiado a ela e não a deixa socializar tanto quanto precisa, com as outras crianças, comprometendo o seu desenvolvimento psicossocial. Mas também acontece muitos maridos serem bastante imaturos, um pouco autocentrados, e mesmo que a mulher não se dedique em excesso aos filhos, terem sempre essa sensação. São homens-criança, que mesmo adultos, já casados e pais de filhos, continuam a requerer atenção da mulher, como se ela fosse sua mãe. Tente perceber qual destes dois é o vosso caso. Se realmente está mais afastada do seu marido, comece a resgatar aquela partilha e cumplicidade que os dois tinham no passado. Se continua a ser uma mulher apaixonada e a desejar sexualmente o seu marido, e a atenção ao seu filho é “apenas” aquela que deve ser, ou seja, se os ciúmes dele são causados por imaturidade, fale com ele e alerte-o para a necessidade de procurar ajuda psicológica. Um processo de desenvolvimento pessoal vai certamente promover nele mais autonomia e garantir uma maior realização de todos, dentro da vossa família. Mas não deixe passar muito tempo para iniciar esta reflexão, que pode ser feita a dois, partilhando com ele todas estas ideias. Quanto mais tempo passa, mais se cristalizam os sentimentos, e depois seria mais difícil construírem a felicidade que todos desejamos e a que todos temos direito.- Dr. Quintino

 

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