Crítica | ‘Stronger – A Força de Viver’

por , 4 Novembro, 2017

Jake Gyllenhaal tem uma poderosa performance neste drama sobre Jeff Bauman, o homem que em 2013 perdeu ambas as pernas, no atentado bombista da maratona de Boston. ‘Stronger – A Força de Viver’ chegou esta semana aos cinemas. 

Por vezes, os filmes baseados em histórias verídicas têm tendência em cativar a audiência através da falsificação de factos ou da glorificação desmensurada das personagens. No entanto, ‘Stronger – A Força de Viver’, do realizador David Gordon Green, apesar de ser sobre Jeff Bauman, o jovem que perdeu ambas as pernas no atentado da maratona de Boston, é filme biográfico que, muito devido as fantásticas performances dos seus protagonistas, consegue transcender alguns dos clichés inerentes ao género.

Baseado no livro de memórias do próprio Jeff Bauman, o realizador procura simultaneamente apresentar uma história inspiradora de superação e demonstrar que o trauma de sobreviver a um atentado é tudo menos inspirador para a pessoa que o sofre. ‘Stronger – A Força de Viver’ narra assim os efeitos que um acontecimento traumático tem na vida da vítima e dos seus familiares.

Jeff (Jake Gyleenhall) num esforço de reconquistar Erin Hurley (Tatiana Maslany), a sua ex-namorada que está a participar na maratona de Boston, espera por ela na linha da meta. Ele encontra-se no epicentro quando acontece o atentado no qual perde ambas as pernas. No entanto, a ajuda de Jeff na identificação de um dos terroristas, tornam-no não num mero sobrevivente mas num herói de toda uma fragilizada nação. Jeff, que não aceita bem o papel heróico de “Boston Strong” que lhe foi atribuído pelos media, tem, com o apoio de Erin, uma missão maior: reaprender a viver.

Em ‘Stronger – A Força de Viver’ existem algumas “cenas inspiradoras”, com intuito de apelar à empatia do espectador, que simplesmente não funcionam – nomeadamente as interações de Jeff com os cidadãos de Boston que o vêem como um herói. No entanto, esses momentos são atenuados pela forma quase simbiótica com que são abordados os temas da reabilitação física e do stress pós-traumático da personagem: de forma realista, penosa e demorada.

A entrega física e psicológica dos atores (e, claro, a direção de David Gordon Green), fazem com que o espectador sinta a angústia vivida por Jeff. Por exemplo, uma das cenas mais bonitas e marcantes é quando no hospital, pouco depois do atentado, lhe são retiradas as ligaduras – as pernas estão em segundo plano, desfocadas, enquanto estamos centrados num único e longo plano do seu rosto, que se vai alterando com a dor infligida pelo procedimento, e no qual vai surgindo Erin para lhe mostrar o seu apoio. É um momento altamente coreografado que, no entanto, se sente como sendo perfeitamente natural.

Neste sentido, é preciso destacar o trabalho do intuitivo Jake Gyleenhall em mais uma interpretação impactante (digna de uma nova nomeação aos Oscars). O ator encorpa de maneira verossímil e sem cair em convencionalismos, as dificuldades de Jeff em viver com a deficiência: as quedas, as dores corporais, a dificuldade de locomoção com as próteses e o esforço necessário para a realização das tarefas mais básicas, como alcançar o papel higiénico. A acompanhá-lo está a surpreendente Tatiana Maslany (conhecida pela série televisiva ‘Orphan Black’), que dá complexidade a Erin, a ex-namorada que o apoia, talvez por amor, culpa ou uma combinação de ambos.

‘Stronger – A Força de Viver’ diferencia-se dos típicos filmes biográficos. Não recai no sentimentalismo fácil. É um filme em que o trunfo não está na história que é contada, mas sim na forma como Gyleenhall e Maslany a interpretam, expondo constantemente de forma crua os conflitos internos e inquietações dos personagens. Este facto, faz com o filme nunca se apresente como um melodrama que típica Jeff Bauman como vítima ou herói.

Aliás, Jeff Bauman, o homem que inspira ‘Stronger – A Força de Viver’, nunca se considerou um herói e sempre questionou esse rótulo. Contudo, se ele é vítima de alguma coisa, será apenas da necessidade vital da sociedade em mercantilizar a tragédia e criar símbolos de esperança.

 

Classificação: 3.5/5

 

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