Dentro do coração

por , 24 Dezembro, 2017

Nesta época do ano, o que vos propomos é uma viagem especial. Não precisa de um avião – ou talvez precise –, o que importa mesmo não é o destino, é a companhia.

Por: Patrícia Reis

Há muitos anos, ainda o meu avô era vivo, liguei-lhe para combinarmos coisas sobre o Natal. Ele respondeu num tom de voz risonho, próprio de quem era: “Querida, estou na Patagónia”. Eu tinha um avô assim. Dizia que ia passar uns dias ao Algarve e acabava em Marrocos. E, naquele Natal, fez-me falta que não estivesse, mas compreendi que a Patagónia é um destino de eleição para qualquer um. Dizia ele que os sonhos são para cumprir, não só para sonhar. Ou, então, são para comer. E ele era muito guloso.

Por isso, naquele ano fizemos o Natal sem o meu avô. Uns anos mais tarde, faleceu em vésperas desta época, e a consoada estava destinada a ser uma noite tristonha e não o foi. Por ser importante estarmos juntos, por um de nós, um dos meus filhos, ter decidido animar a noite de uma forma infalível, imitando sotaques, brincando, arranjando forma de gerirmos em conjunto as saudades do avô.

Em dezembro, temos sempre esta viagem prevista para estar com a família. É uma viagem que pode obrigar-nos a sair de casa, até a mudar de país, para estarmos com aqueles que amamos, mas é uma viagem que nunca é rotina por nunca ser igual. Todos os anos, a vida mostra-nos que estamos diferentes, uns por terem nascido, outros por terem crescido, outros por terem andado para a frente com as suas profissões de forma inesperada, outros por terem novos amores e paixões.

E, à volta de uma mesa que muitas vezes já não cumpre todos os preceitos tradicionalistas da gastronomia portuguesa (eu não gosto nada de bacalhau e considero bastante deselegante, e fora do espírito da época, quem me obrigue a comer uma coisa de que não gosto), a viagem é um encontro. Ou um reencontro, se preferirem.

Com a morte do meu avô, percebi que a família do coração era, afinal, mais difícil de gerir do que eu antecipava e algumas pessoas afastaram-se, outras tornaram-se ainda mais próximas. Não através dos laços evidentes, apenas através do amor e, nesse sentido, sou uma privilegiada. Além de uma família biológica, tenho uma família lógica e fazemos esta viagem sazonal, celebrando o nascimento de Cristo, com alegria por estarmos juntos.

A família lógica são os amigos e é sempre bom chegar, abraçar, trocar prendas simbólicas, saber que a melhor prenda que temos é dar o nosso tempo, porque uma vez dado, não regressa, é daquele momento, daquelas pessoas.

Assim, para esta viagem inusitada em páginas da CRISTINA, deixo algumas dicas essenciais. Tome nota:

  • – leve um sorriso;
  • – cozinhe algo de que goste especialmente, a cozinha é uma das melhores formas de amor;
  • – se as pessoas que ama estão longe e não pode estar com elas, não mande sms, ligue;
  • – vista-se a preceito, mas esteja sempre confortável;
  • – se tem muitas crianças à sua volta, prepare-se para ter uma mão cheia de jogos, nos quais os adultos possam participar;
  • – escolha bem a música que vai acompanhar a vossa noite;
  • – não stresse com coisas fora do sítio, quando chegar a hora de arrumar, aceite ajuda; arrumar e limpar não tem de ser uma tarefa de uma pessoa só;
  • – peça ao avô ou avó para contar aquela história que já ouviu centenas de vezes; talvez o(a) seu(sua) filho(a), sobrinho(a), afilhado(a) possa retirar dela algo mais para a vida;
  • – escolha um conto de natal e leia em voz alta, ou – melhor! – convide as pessoas a lerem um excerto.
  • – esqueça a televisão, os smartphones, os posts no Instagram. Vai perder aquele sorriso, aquela palavra, só por estar fixado num ecrã e não nas pessoas à sua volta;
  • – não compre prendas caras, não é por ser caro que representa mais amor, e os saldos começam logo dia 26 de dezembro;
  • – ofereça livros, cadernos para desenhar, peças para construir, algo que implique as expressões: meter mãos à obra e a cabeça a funcionar;
  • – seja feliz e boa viagem.
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