Diferentes religiões, diferentes tradições

por , 4 Abril, 2019

Cada religião celebra o casamento à sua maneira, e há tradições que têm sido mantidas ao longo dos séculos. Falámos com alguns casais de diferentes religiões, que vivem e casaram em Portugal, mas não esqueceram as suas raízes no dia mais importante das suas vidas.

por MARGARIDA MENINO FERREIRA

Ainda que o propósito seja sempre o mesmo – o de unir duas pessoas que se amam –, cada religião celebra este momento sob os costumes e tradições próprios. Na Índia, por exemplo, o casamento é uma comemoração rica, cheia de detalhes com significado, e que acontece durantes vários dias. Homni Bhaji é hindu, filha de indianos, mas nascida em Portugal. Apesar de ter já nascido cá, é com a religião e a cultura indianas que se identifica. Por esse motivo, quando chegou a altura de se casar, não fazia sentido senão com um casamento tradicional hindu.

No primeiro dia juntam-se os convidados, à noite, para dançar e comemorar. O casamento só acontece no segundo dia. Ainda antes da cerimónia, os noivos são preparados.

O primeiro dia é chamado Sangeet, e é uma espécie de despedida de solteiro para os dois, com todos os convidados reunidos. A seguinte etapa que antecede o grande momento é a preparação. A noiva é enfeitada com joias, e pequenos detalhes, que podem refletir o statussocial. As mãos e os pés são tatuados, com tinta de hena. Os dois noivos são ainda banhados numa pasta de sândalo para, segundo Homni, ficarem mais bonitos.  O casamento acontece no segundo dia, também à noite. A noiva espera o noivo no altar, e o casamento é celebrado por um padre indiano. Já o copo- d’água só se realiza no terceiro dia.

Casando em Portugal, os noivos de outras religiões tentam, cada vez mais, adotar algumas das nossas tradições; mas há ainda culturas que se mantêm fiéis aos seus costumes. A expressão ‘casamento cigano’ é usada, por todos nós, quando achamos que uma festa já está a durar mais dias do que esperávamos. A expressão existe e não podia ser mais literal.

Os casamentos ciganos duram, realmente, alguns dias. Segundo Afonso, português de etnia cigana, as tradições ciganas começam agora a perder-se, e já são poucos os casamentos típicos. Apesar disso, ainda existem casamentos de três ou quatro dias. Afonso e Vanusa casaram há dez anos, quando já tinham mais de trinta anos de idade, e foram os próprios a escolher com quem trocar votos. Não casaram cedo, comparando com alguns noivos ainda adolescentes. E não tiveram um casamento arranjado. São um casal cigano moderno e alternativo, mas explicaram-nos como manda a tradição.

Hoje em dia, como em todas as culturas, têm-se perdido algumas tradições. As pequenas comunidades têm de se ir adaptando, o que para mim é uma coisa positiva, porque acabamos por nos inserir mais na sociedade. Já existem poucos casamentos arranjados pelos pais, mas ainda acontece.

Afonso e Vanusa conhecem-se desde jovens, e apesar de o casamento não ter sido arranjado, acreditam que estavam destinados a ficar juntos. São cristãos evangélicos, e quando se faz uma festa, é sempre uma grande festa. O pastor celebra o casamento. Trocam os votos e o lenço. O ritual do lenço deixa Afonso envergonhado. Não por falar sobre o assunto, mas por saber que ainda há quem o faça. Trata-se de um lenço que prova a virgindade da noiva. “O pilar absoluto da cultura cigana no casamento era a virgindade da mulher. Fazia-se – e ainda se faz – o ritual de tirar a virgindade à mulher, que é provado pelo tecido que os padrinhos bordam e ornamentam. A mulher é desvirginada à mão, por uma mulher mais velha. É macabro”.

O casamento cigano está a mudar, mas manda a tradição que a festa dure dois ou três dias, que os padrinhos comprem cestos e levem amêndoas, que os noivos sejam levantados no ar, depois de estarem casados, e que a noiva vá vestida de branco – ainda que troquem de roupa até sete vezes, durante a festa, exibindo os seus melhores vestidos. “Há muita comida, bebida, música e alegria. Ninguém escapa às adversidades, ricos ou pobres, não sabemos quando ela nos bate à porta. Por isso, nós gostamos de festejar quando podemos”, conclui Afonso.

Por falar nisso, não há festa maior que a de um casamento muçulmano. Para cada um são convidadas, no mínimo, trezentas pessoas. Waqar Ahmed é paquistanês, mas mudou-se para Portugal há já algum tempo. O casamento começa dois dias antes, com festas e celebrações como o pintar das mãos.

“O mais importante são os dois últimos dias. Não trocamos alianças, mas trocamos votos. Juntam-se as famílias, os convidados dão prendas e dança-se muito. Faz-se também muita comida. No final do dia, os noivos saem num carro enfeitado de flores”, explica.

 

 

 

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