Dolores Aveiro: “Sempre fui rebelde”

por , 20 Junho, 2018

Dolores Aveiro teve uma vida dura. A mãe morreu cedo, viveu num orfanato, nunca teve carinho e trabalhou muito. Quando Ronaldo era ainda uma criança mandou-o para Lisboa, e aí, aí… mudou tudo. Até hoje.

POR CRISTINA FERREIRA | FOTOGRAFIA NICOLAS GERARDIN | STYLING ROMUALD PREMIER | MAQUILHAGEM E CABELOS INÊS FRANCO | Agradecimentos Chopard, Fauconnerie Christophe Puzin, Hotel Martinez, TAP Air Portugal

 

CRISTINA FERREIRA: Aqui estamos nós, nestas andanças.

DOLORES AVEIRO: É por uma boa causa. (Risos)

C.F. – Alguma vez se imaginou nestas produções fotográficas? A ter esta vida?

D.A. – Não. Nunca, Cristina. Até porque eu não gosto disso. E faço por seres a pessoa que és. E é por um bom motivo.

C.F. – Muito obrigada. Esta é uma forma das pessoas a conhecerem. Em pequenina imaginava a vida que queria ter ou, nessa altura, não havia grandes sonhos?

D.A. – Não havia grandes sonhos. Nessa altura, havia muita pobreza. E, com o passar dos anos, resolvi escrever este livro para transmitir a todas as mulheres aquilo por que passei e dizer-lhes que vale a pena lutar.

C.F. – Quando fala em pobreza, estamos a falar de pobreza mesmo? Ao ponto de não ter nada para comer?

D.A. – Sim. A minha mãe vivia do bordado e o meu pai sempre foi uma pessoa que bebia e não tinha responsabilidade alguma. Era mesmo pobreza.

C.F. – Ao ponto de, às vezes, passar fome?

D.A. – Sim. Eram os vizinhos que ajudavam a minha mãe e lhe davam um prato de comida. A minha mãe dividia por todos e, muitas vezes, deitava-se sem comer.

C.F. – Eram quantos filhos?

D.A. – Eram muitos. Oito filhos. A minha mãe morreu com 37 anos e deixou oito filhos. (Emocionada)

C.F. – Esses olhinhos agora começaram a brilhar a lembrar-se disso.

D.A. – Mãe é mãe. E, hoje, como sou mãe e avó tudo isso custa. (Emocionada) Porque foi uma dor muito grande. (Emocionada)

C.F. – Que idade tinha quando a sua mãe faleceu?

D.A. – Eu tinha seis anos quando perdi a minha mãe. E a minha mãe deixou um menino com nove meses de vida.

C.F. – Quem é que o criou?

D.A. – Foi para um orfanato. Foi o bebé de nove meses, outro menino com dois anos, outro com quatro, eu com seis e o meu irmão.

C.F. – A sua mãe morreu de quê? Doente?

D.A. – Sim. A minha mãe morreu de coração. De ataque cardíaco. Ela foi para hospital, onde ainda esteve lá dois dias, mas acabou por falecer.

C.F. – E como é que uma menina de seis anos viveu isso tudo?

D.A. – Fui para o orfanato com uma irmã, porque a nossa idade permitia estarmos juntas. Não estávamos junto dos irmãos mais pequenos. Acho que foi a força que a minha mãe me transmitiu que me ajudou a lutar até ao fim. E hoje em dia continuo a lutar.

C.F. – Foi buscar a força a ela? Era uma mulher cheia de garra?

D.A. – Era. A minha mãe era uma lutadora. Era uma mulher guerreira. Lutou sempre até à morte. E acho que tenho isso, dela.

C.F. – Ela era muito carinhosa para os filhos?

D.A. – Era. A minha mãe era muito carinhosa, mas não tinha tempo para dar tanto carinho aos filhos como nós desejávamos. A vida dela era trabalhar.

C.F. – Nunca teve esse carinho do seu pai?

D.A. – Não. Até há três anos, nunca tive esse carinho. Não sei o que é um abraço ou um carinho de um pai. Nunca tive.

C.F. – E isso magoava-a? Magoava aquela menina que foi para o orfanato?

D.A. – No orfanato eu estava bem. Depois, quando fui para a casa do meu pai, pensei que iria ficar melhor. Fugi do orfanato para a casa do meu pai.

C.F. – Fugiu mesmo?

D.A. – Fugi. Meti-me no autocarro, no Funchal, e vim ter a Santo António. Pensei que ia ser melhor, mas, em casa do meu pai, já lá estavam cinco filhos. A minha madrasta teve mais três filhos. Nós éramos treze. Pensei que ia ser melhor, mas foi um inferno.

C.F. – Quantos anos esteve no orfanato?

D.A. – Estive dos seis aos doze anos.

C.F. – E esse período em que esteve no orfanato foi bom? Tinha família que a fosse visitar?

D.A. – Foi muito bom. Não tinha família que me fosse ver.

C.F. – Ninguém a visitava?

D.A. – Lembro-me de o meu pai me ir visitar com a minha madrasta, que estava grávida, e de o meu pai me dizer: ‘Esta mulher vai ser a tua mãe de hoje em diante’. As visitas que tinha eram de outras pessoas que me davam um chocolate ou um bombom. Dessas eu tinha carinho. E a mim faltava-me também esse carinho. Eu encostava-me às minhas amigas. Só me lembro de o meu pai me ter ido ver uma vez.

C.F. – Então, por que é que quis ir morar com o seu pai?

D.A. – Porque eu pensei que iria ter liberdade. No orfanato, estávamos como que presas. Pensei que iria ser melhor, mas não foi. Quanto fugi, a madre superiora já não me quis receber, porque eu era um mau exemplo para as outras meninas. A madre superiora disse ao meu pai: ‘Senhor José, se já cuidas de cinco filhos podes cuidar de mais uma’. E assim foi.

C.F. – A Dolores era rebelde?

D.A. – Eu sempre fui rebelde. (Risos)

 


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