Pergunte ao Dr. Quintino | A Mentira

por , 2 Abril, 2018

“Dr. Quintino, num almoço de domingo em casa da minha irmã mais velha, a conversa continuou durante a tarde, sobre as mentiras dos filhos. Muitas opiniões diferentes, sobre se os filhos aprendem a mentir com os pais, se há idades em que as crianças mentem naturalmente, como devem os pais agir quando percebem a mentira. No final da tarde concordámos todos que o melhor seria perguntar-lhe a si, diretamente, e eu fiquei com a tarefa de lhe enviar este desafio. Quer “juntar-se” à nossa conversa, o que seria um orgulho para a nossa família, falando-nos um pouco sobre a mentira?”

Talvez seja mentira o que agora lhe escrevo. As pessoas mentem umas às outras, e, pela mentira, afirmam a sua personalidade e confirmam a sua individualidade. Para Além dos outros, do grupo, cada individuo é um ser humano particular, que se mostra por verdades e se tapa por mentiras. Os humanos mentem. Os animais mentem. Sabemos isso em qualquer programa sobre vida animal, em que tantas vezes nos apresentam as mil maneiras de os animais, de muitas espécies diferentes, se disfarçarem e mentirem uns aos outros, sobre o que são realmente. Para nós, humanos, a mentira começa cedo. Ainda na infância. A criança tapa os olhos com a sua mão e diz, absolutamente segura de si: “não estou aqui!”. As primeiras mentiras são fraquinhas; só a própria criança não se apercebe de que todos os outros sabem que ela está a mentir. Mas depois vai-se aperfeiçoando. Quanto mais socializa, mais aprende a mentir. E não há nisso qualquer mal. A mentira será, no futuro, o mais importante instrumento relacional a ajudá-la a movimentar-se, de forma individual, no meio de tantos outros humanos. Sabemos que a vida é uma dura luta; quem se mostra, transparente, acaba esmagado nas mãos de alguém. A mentira permite que só o próprio conheça completamente o que lhe pertence e como é. E só dá esse conhecimento aos outros, mostrando-lhes verdades, quando entende. Por tudo isto a mentira é parte da vida relacional e emocional das pessoas, apesar da dura afronta e da crítica que sempre lhe fazemos. Mentimos. Todos mentimos. No passado, afirmar “nunca minto” era prova de que aquela pessoa estava a mentir nas respostas ao teste. Porque todos alguma vez mentimos! A mentira faz parte da gestão das relações entre humanos. Nem sempre queremos, ou podemos, mostrar ao Outro tudo o que se passa connosco. E quantas vezes, em pequenas coisas do dia a dia, uma mentira evita um conflito ou um desgosto, sem causar dano nem acrescentar mal algum ao que acontece depois? Se aliviar um sofrimento, até lhe chamamos a mentira piedosa. Mas se a mentira faz parte, se é mesmo necessária, porque a rejeitamos tanto? Em situações diferentes, por razões diferentes. Na relação entre pais e filhos a mentira pode ser muito perigosa. A criança e o adolescente não estão ainda capazes de se bastar e cuidar de si. O cérebro encontra-se em desenvolvimento, não está pronto para acautelar as consequências futuras de alguns erros, no presente. - Dr. Quintino

Leia a crónica do Dr. Quintino na íntegra na edição deste mês, nas bancas ou na app CRISTINA M.

Escreva ao Dr. Quintino através do endereço de e-mail redacao@revistacristina.com

  • Comentários

    Artigos relacionados