Encontro Mulheres nas Artes – Percursos de Desobediência

por , 12 Outubro, 2017

O Encontro Internacional Mulheres nas Artes debate a afirmação da mulher em diversas áreas artísticas e contará com a presença de Joumana Haddad, autora do livro  “Eu Matei Xerazade: Confissões de Uma Mulher Árabe em Fúria” e ainda com a apresentação do filme “A Festa” de Sally Potter.

Por: Patrícia Reis

“Às vezes eu faço alguma coisa proibida, só pra me lembrar que eu sou livre”, declarou Clarice Lispector, extraordinária escritora que, no seu primeiro romance (Perto do Coração Selvagem) escreveu: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”.

Qualquer forma de criação nasce da desobediência, isto é, da capacidade de questionar o que existe, o que está, o que é considerado como adquirido por uma determinada sociedade. A metade feminina da humanidade esteve aparentemente confinada ao silêncio e à obediência até há pouco mais de cem anos; os sinais da sua potencial ou efectiva desobediência foram, com raras excepções, não só punidos como apagados. A cultura da opressão gera uma contracultura de resistência. Virginia Woolf expressou, já no início do século XX, o seu temor de que a raiva contra a opressão se tornasse um segundo grau da opressão, pelo espaço que ocupava dentro do pensamento, impedindo-o de ver além da miséria da sua condição e enevoando a possibilidade da descoberta.

A afirmação das mulheres nas artes foi e é ainda um trajecto de desobediências múltiplas e sucessivas. Um trajecto feito de obstáculos, dificuldades, descobertas, depressões e alegrias singulares. Mas poderá ser a desobediência apenas uma perversão da obediência? Poderá tornar-se a desobediência em armadilha e padrão? A voz conquistada na resistência pode libertar-se do imediatismo do combate? Como pode uma artista encontrar e fazer ver ou ouvir uma linguagem que seja sua num mundo de em que os cânones artísticos foram, e continuam maioritariamente a ser, estabelecidos por intelectuais e artistas do sexo masculino?

Ao longo de dois dias, 18 artistas debaterão estas questões e falarão dos seus percursos em cinco mesas de debate (respectivamente: Literatura, Música, Cinema, Artes Visuais e Artes de Palco) e três conversas de vida e obra. Homenageamos os percursos de três figuras marcantes da cultura portuguesa: a poetisa, romancista e activista Maria Teresa Horta, a escritora Lídia Jorge e a pintora Graça Morais. Evocaremos as obras de Clarice Lispector e de Fiama Hasse Pais Brandão, no ano em que se cumprem 40 anos sobre a morte da primeira e dez anos sobre a morte da segunda, através das vozes da poeta Filipa Leal e da actriz e encenadora Natália Luiza. Estrearemos um filme realizado por uma mulher e assistiremos a um espectáculo de vozes femininas cantando peças de compositoras.

Joumana Haddad mulheres nas artes gulbenkian

Joumana Haddad © LARS KRABBE

Joumana Haddad, escritora e jornalista libanesa que lançou e dirige há dez anos uma revista cultural sobre o corpo (JASAD) em árabe e destinada ao mundo árabe, é a conferencista convidada deste Encontro; a sua voz lúcida e desassombrada tem-se dedicado a destruir os tabus e equívocos sobre criatividade, arte e relação entre homens e mulheres, tanto no Oriente como no Ocidente. Joumana Haddad lançará, nesta conferência, a tradução portuguesa do seu livro “Eu Matei Xerazade-Confissões de Uma Mulher Árabe Enfurecida”, que será apresentado pelo poeta e ensaísta Nuno Júdice.

As conferências de abertura e fecho do encontro caberão respectivamente a Guilherme d’Oliveira Martins e Rui Zink, dois intelectuais e escritores que têm contribuído, quer através do que escrevem quer através do seu exemplo de vida, para o desígnio de um mundo de autêntica paridade entre todos os seres humanos.

Mulheres nas Artes terá lugar nos próximos dias 16 e 17 de Outubro na Fundação Calouste Gulbenkian.
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