Filho és, Pai serás

por , 17 Julho, 2017

Uma frase recorrente, quando somos para os filhos aquilo que tanto criticámos nos nossos pais.  O texto que vai ler é resultado da conversa com um jovem pai *. Será que se identifica? 

POR ANDRÉ RITO

 

Podemos fugir da genética? O meu pai sempre foi aquele tipo de homem conservador, assumia com naturalidade o papel tradicional do chefe de família: filhos na linha, mulher na cozinha. A minha mãe, professora, hoje com quase 80 anos, nunca questionou o seu papel: trabalhava, era mãe e dona de casa. E protegia-nos: cúmplice das nossas asneiras – perdi a conta às vezes que nos encobriu -, tinha a conversa certa para amansar e convencer o marido a deixar os filhos viverem uma adolescência normal. Sempre achei que a minha personalidade tinha sido moldada mais por ela do que pela figura do meu pai. Até ao dia em que afinal percebi que éramos quase iguais.

Não é fácil chegar a uma conclusão destas. Porquê? Simples: debatemo-nos anos, eu e o meu pai, com uma relação conflituosa. E embora não o criticasse ou afrontasse directamente – normalmente fazia as queixas à minha mãe -, julgo que cedo ganhei a distância necessária para perceber que não era o modelo que mais me inspirava. E foi no pico da ingenuidade dos meus 16 anos, altura em que tivemos uma discussão que nunca mais esqueci, que percebi o quanto seria diferente na minha vida adulta: não tinha nada a ver com os castigos pelas más notas, nem com as vezes em que fiz de conta que não ouvia a campainha para evitar dizer aos meus amigos “o meu pai não deixa”, ou com coisas mais simples como não poder sair para a rua depois do banho para não me sujar.

Nesse Verão, julgo que foi em 1978, um dos meus melhores amigos, que normalmente passava férias a acampar na Figueira da Foz, convidou-me para passar uns dias com ele e com o irmão mais velho. Foi preciso fazer um jantar em minha casa com os dois rapazes – algo que já era habitual – para convencer o meu pai. Quis saber todos os planos para os nossos cinco dias de férias e fez questão de me levar à porta do parque de campismo. O que até seria normal caso não ficasse a quase duas horas de distância da nossa casa. “De comboio? Sozinhos?! É que nem penses!” Acho que ainda hoje me lembro de ver o carro desaparecer na curva e do meu amigo a sacar logo de um cigarro. Ainda de tenda às costas.

Estávamos livres, pensava eu, mas as férias foram curtas: no segundo dia, sentado numa esplanada junto à praia, com uma cerveja na mão e um cigarro na outra, senti tocarem-me no ombro: “era para isto que querias vir de férias?” Inacreditavelmente, ali estava o meu pai, de óculos escuros e com a mesma roupa que vestira no dia anterior. Tinha ficado a dormir num hotel, nunca percebi muito bem por que razão. Não precisei de meia hora para arrumar tudo e voltar para casa. Fiquei de castigo o resto do verão, estivemos meses sem nos falarmos. A minha mãe chorava. Mas passou, tudo passa, e, hoje, a minha filha, de 17 anos, sabe de cor essa história. E goza comigo.

É uma miúda tranquila. Sou ainda “pai” emprestado do filho da minha namorada. A minha filha conhece quase todas as minhas histórias de infância e adolescência. Há uns tempos percebi que isso era uma desvantagem: que quando eu queria fazer valer um ponto de vista para lhe dizer “não”, acabava invariavelmente a ouvir indiretas sobre as minhas parecenças com “o avô”. A herança genética é como o destino: inevitável.

Na minha casa nunca existem essas regras de os miúdos não irem

para a rua depois do banho, de não andarem de autocarro porque são demasiado novos. Nada disso. O meu caminho foi diferente do do meu pai: a melhor forma de educar um filho é responsabilizando-o, não controlando todos os seus passos. É fazendo-o perceber que a cada acção implica uma consequência ou reacção. Sou bom em teorias mas a prática – o verdadeiro teste à prática – aconteceu no ano passado quando, pela primeira vez, a minha filha me pediu para ir a um festival de verão. Dos clássicos: onde se acampa com os amigos, onde se dorme mal durante três dias, onde existe álcool e drogas para quem quiser.

Não vale a pena dizer o quanto me custou deixá-la ir de comboio com as amigas. Fui levá-la à estação e tentei não ligar aos putos que fumavam ganzas à porta da estação, carregados de mochilas com panelas penduradas. Combinámos falar uma vez por dia ao telemóvel e vim embora com um nó na garganta. Ao segundo dia do festival, a miúda tinha o telemóvel desligado. Um dia inteiro sem notícias dela.

A genética é um fardo de algodão.

Quase sem pensar, meti-me no carro e conduzi até à Zambujeira do Mar. Claro que não a encontrei. Tudo o que consegui foi dormir uma noite ao volante e ser acordado com uma chamada dela: “desculpa, isto tem sido caótico, ficámos as três sem bateria.” Lembrei-me do meu pai, tive saudades dele. Liguei o carro e vim embora. Envergonhado, mas orgulhoso. De mim e dela.

 

* texto escrito a partir de entrevista feita ao cidadão Jorge Cardoso.

Este artigo foi originalmente publicado na edição de Junho.

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