«Ilha dos Cães» | A odisseia canina de Wes Anderson

por , 23 Abril, 2018

Após quatro anos de ausência, o singular realizador americano está de regresso com “Ilha dos Cães”. Uma animação para adultos, filmada ao pormenor, repleta de idiossincrasias e sátira política. Seja amante de gatos ou cães, esta é uma fábula com encanto nipónico que não pode perder.

Por: Diogo Marques 

Desde de 2009, quando produziu o seu primeiro filme animação “O Fantástico Senhor Raposo”, que Wes Anderson tinha duas ideias por concretizar: por um lado, uma história sobre cães abandonados que vivem num aterro e por outro, uma obra de tributo ao Japão. O resultado da junção dessas ideias surge agora em “Ilha dos Cães” – uma animação de homenagem a dois dos maiores nomes do cinema japonês: Akira Kurosawa e a Hayao Miyazaki.

Em “Ilha dos Cães”, o cineasta do Texas faz novamente recurso da técnica stop motion. Durante 101 minutos dá vida a mais de 2000 bonecos fabricados manualmente com arame e silicone. Ao contrário do que sucede com “O Fantástico Senhor Raposo”, cujo o argumento é baseado num livro infantil, esta nova fábula animada é destinada aos adultos – sendo uma alegoria sobre política e totalitarismo, onde personagens caninas falam em suicídio com as próprias trelas, e há feridos que sobreviveram a testes laboratoriais. Estes cães não são, de todo, os melhores amigos do Homem.

A ação decorre na cidade fictícia de Megasaki onde um governante corrupto (amante de gatos) ordena que todos os cães sejam retirados aos seus donos e exilados na Ilha do Lixo. No entanto, a tensão dramática ocorre quando Atari, uma criança de 12 anos, se desloca até à ilha para recuperar o cão Spots.

O Homem representa, aqui, o absolutismo e a opressão. A criança e os cães são os agentes da liberdade e elementos anti sistema – com a incrível particularidade linguística que os humanos falam japonês e a língua dos cães é o inglês.

O cinema de Wes Anderson é um cinema de detalhes, e “Ilha dos Cães” não é exceção. Apresenta a habitual simetria na composição dos planos, uma marca registada do realizador de “Grand Budapest Hotel”. No entanto, a simétrica criatividade visual e o meticuloso detalhe presentes nesta odisseia canina com mais de 250 cenários – onde pelo meio, ocorre aquele que é o primeiro transplante de rim animado –, podem ser desconcertantes se pensarmos que foram alcançados através da movimentação de objetos inanimados. Todos os filmes de Anderson são maravilhas estéticas inconfundíveis, mas “Ilha dos Cães” é um dos mais bonitos. 

A banda sonora de Alexandre Desplat (compositor recentemente oscarizado pela banda-sonora de “A Forma da Água”) cria uma inesperada atmosfera de suspense e os diálogos das personagens caninas Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Boss (Bill Murray) e Duke (Jeff Goldman), com cirúrgicas nuances de humor, parecem idiossincrasias dos atores que lhes dão voz. A forma como as personagens de Wes Anderson apelam tanto à razão como à emoção é um privilégio de muito poucos cineastas.

No entanto, o argumento escrito em conjunto com os seus parceiros habituais Roman Coppola e Jason Schwartzman (que contribuírem para os argumento de “Moonrise Kingdom” e “The Darjeeling Limited”) apresenta algumas lacunas: não só a história toma a forma de flashbacks excessivos, que danificam o ritmo narrativo, como também desenvolve um enredo secundário com uma aluna de intercâmbio (Greta Gerwig) – que pouco ou nada contribui para a progressão da história -, em vez de se focar em Oracle (Tilda Swinton) e Nutmeg (Scarlett Johansson), personagens caninas que são desenvolvidas de forma algo rudimentar.

Ainda assim, “Ilha dos Cães” não deixa de ser um feito soberbo no cinema de animação. Uma obra que abordada temas como eleições forjadas, emigração, deportação, mas que no final dá ênfase a um do mais puros sentimentos: o amor de uma criança pelo seu cão.

 

CLASSIFICAÇÃO: 4 /5

 

 

 

 

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