Internet | Quando o ódio não tem cara

por , 4 Agosto, 2017

Entre gostos, comentários, visualizações e partilhas, escondem-se ataques que vincam fragilidades e realçam preconceitos. Resumem o ódio que, na era da internet, se faz sem cara.

Por Xavier Pereira

Callie Thorpe criou, há cinco anos, o blogue From the Corners of the Curve, em que assume cada curva do seu corpo e luta pela valorização das mulheres plus size. Sabe que o peso é um tema sensível. O seu, em particular. As formas que compõem o seu corpo são redondas, longe dos ideais de beleza que as marcas e os media sugerem há anos. Ainda assim, Callie decidiu assumir o corpo que tem e isso inclui vestir biquínis. Não tem medo de se expor, e isso têm-lhe valido milhares de seguidores. Mas nem sempre foi – ou é – um mar de rosas.

Toda a vida, Callie foi alvo de críticas pelo peso que tem. Hoje, lida bem com todas elas, mas ainda assim, vai sendo surpreendida. No início do mês de julho, a Vogue norte-americana publicou um artigo, no site da revista, sobre biquínis. Uma das imagens usadas para ilustrar o o artigo, foi uma fotografia de Callie (veja aqui). A blogger rejubilou com o destaque. E ainda hoje se diz orgulhosa. Mal sabia o que se havia de seguir.

Fotografia usada no artigo da Vogue US

Apesar de sempre ter sido confrontada com comentários abusivos, a norte-americana assumiu, numa entrevista recente, que os comentários que surgiram no site da Vogue foram os mais ofensivos que alguma vez tinha lido, e chamou a atenção para um tópico que acrescenta conteúdo à discussão que se tem vindo a gerar. Na opinião de Callie Thrope, generalizou-se a ideia de que os comentários ofensivos são sempre vindos de indivíduos pouco escolarizados – a quem apelidou de “trolls”-, mas o que a blogger diz ter percebido é que, hoje em dia, muitos dos ataques de ódio são feitos por gente informada, mas que opta pela via do ódio como reação a conteúdo que, de alguma forma, foge à norma – como o corpo de Callie. E este é apenas um de muitos exemplos. Em alguns casos, as repercussões são maiores e, muitas vezes, irreversíveis.

Um estudo feito nos Estados Unidos, no ano passado, diz que, numa amostra de 5700 estudantes entre os 12 e os 17 anos, existem 33.8% que já se sentiram vítimas de ataques online. 22.5% diz ter recebido comentários maldosos em publicações na internet. Algo que não olha a fronteiras geográficas. 

Por cá, ao longo do último mês e na sequência da campanha contra o preconceito que a revista CRISTINA promoveu, com dois casais homossexuais na capa, repetiram-se milhares de comentários homofóbicos, nas redes sociais. No final, a mesma pergunta: porque é que choca? 

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