José Saramago: 20 anos depois do Nobel

por , 11 Outubro, 2018

Assinalam-se esta semana duas décadas desde o dia em que um português ganhou um prémio nobel da Literatura. O único, até hoje. Para o destacar e celebrar o feito de José Saramago, o jornalista brasileiro Ricardo Viel reconstruiu os dias que antecederam e se seguiram ao anúncio de atribuição da distinção.

POR: Xavier Pereira

 

 

CRISTINA – Como descreve este livro? 

RICARDO VIEL – Acho que não é um ensaio, nem um livro académico. Eu sou jornalista, por isso, acho que é uma reportagem, mas também é uma homenagem. O livro divide-se em duas partes. A primeira é uma reconstituição dos dias antes e depois do Prémio, feita por mim, com base em dezenas de documentos e entrevistas que fiz. A segunda parte, mostra muitas das cartas e mensagens que o Saramago recebeu naquela altura. Cartas de felicitações, mas, também, muitas de agradecimento.

 

CRISTINA – Alguma de que se lembre, em particular?

RICARDO VIEL – São mesmo muitas e aquilo que aparece no livro é só uma muito pequena parte. Foi um trabalho difícil de escolha. Há cartas muito emocionantes. Há uma que está reproduzida, com cópia do original. É de uma menina de sete anos, com letra ainda muito iniciante, que dizia: “O meu avô gosta muito de si, mas eu nunca li um livro seu”. Essa é uma das que está no livro.

 

CRISTINA – Qual foi o ponto de partida para este trabalho?

RICARDO VIEL – Tudo começou quando eu estava a trabalhar num livro que iria mostrar a correspondência entre José Saramago e Jorge Amado, que foi editado o ano passado. Foi a partir daí que surgiu o interesse deste livro. Há muitas cartas de personalidades, mas também de anónimos. Mais do que dar os parabéns, agradeciam. Na altura em que preparávamos o livro do Jorge Amado, pensámos que fazia sentido, ter um com aquelas outras cartas, mas, depois, comecei a entrevistar algumas pessoas, vasculhei nos documentos da Fundação Saramago e foi assim que fui reconstruindo aqueles dias.

 

CRISTINA – Foi um processo demorado?

RICARDO VIEL – Não. Isto passou-se há 20 anos, mas ainda há muita gente viva com recordações da época. Foi assim que consegui reconstruir tudo. O momento em que percebi que tinha muito material, foi quando entrevistei um professor universitário que dava aulas em Estocolmo. Foi quem serviu de ponte com a Academia Sueca. Teve de traduzir os documentos, mas foi o responsável por saber onde é que o Saramago ia estar. Ele deu-me uma entrevista e foi a primeira vez que falou sobre isso. Aquele professor soube seis dias antes que o Saramago tinha ganho, mas teve de guardar o segredo. Ele conhecia o José Saramago. Mostrou-me a agenda daquela altura, um diário, com as impressões desse dia. Foi aí que percebia que não podia fazer só uma introdução com base naquelas conversas que estava a ter. Foi assim que o livro foi crescendo.

 

CRISTINA – O que disse Pilar Del Rio do livro? 

RICARDO VIEL – Foi curioso. Ao início pensámos que seria um livro da Fundação Saramago, com as cartas, mas depois fui ao Brasil, de férias. Lá, terminei a primeira parte e depois mostrei à direção da Fundação, onde se inclui a Pilar. A reação deles foi muito boa. Depois, fui com a Pilar para Madrid e reunimos com a editora de Saramago em Espanha e a Pilar fez um comentário sobre o meu livro e a editora disse que gostaria de ler para publicar em Espanha. E foi a Pilar quem fez a tradução para Espanhol! Às vezes ela dizia-me que tinha pudor em traduzir algumas partes. Durante a tradução, ela também me ia ajudando. Outra coisa engraçada é que ela não se lembrava de algumas coisas. Uma delas estava relacionada sobre o momento em que falou, pela primeira vez com o Saramago, depois do anuncio. Ela dizia que tinha sido ao final do dia, porque tinha pagado da memória uma conversa menos simpática que tinha tido com o marido minutos depois do anúncio oficial.

 

CRISTINA – Se José Saramago lesse este livro, o que diria? 

RICARDO VIEL – Já pensei nisso, mas não sei se teria coragem de fazer o livro com o Saramago vivo. (Risos) Se ele lesse, acho que lhe pediria para não fazer qualquer comentário. Se ele estivesse vivo, este livro talvez não fosse necessário. Talvez o entrevistasse. Nunca convivi com ele. Vi-o muito poucas vezes, no Brasil, mas apenas como leitor. Nunca tive oportunidade de lhe fazer uma entrevista. Acho que o meu desejo seria esse, para falar sobre estes 20 anos, infelizmente não é possível.

 

CRISTINA – Este livro assinala 20 anos da atribuição do Prémio. Na sua opinião, os portugueses estavam preparados para o Nobel? 

RICARDO VIEL – Na altura eu ainda não vivia aqui em Portugal. Só vim em 2012. Não presenciei essa alegria que falo no livro. Sempre tive a ideia de que os portugueses eram contidos e que o Saramago sempre teve uma relação complicada com Portugal. No entanto, mudei muito a minha ideia depois de fazer o livro, pelos relatos e cartas. Eles mostram que foi uma alegria muito grande para o país. Se estavam preparados, não sei, mas acho que desfrutaram muito. O Saramago tem uma frase muito bonita, em que dizia que “parecia que cada português tinha ganho três centímetros de altura”. A sensação que tenho é que as pessoas estavam felizes. Foi um prémio recebido como algo coletivo. Noutros países, foi visto como um prémio da língua portuguesa, mas a verdade é que extrapolou a lusofonia. O Gabriel García  Márquez diz que foi um prémio ibero-americano.

 

CRISTINA –  E hoje, na sua opinião, Saramago ocupa o lugar merecido? 

RICARDO VIEL – Acho que sim. Na Fundação Saramago, recebemos muitos alunos em visitas de estudo. Sinto que Saramago vai continuar a ser lido. Um dia, numa visita, um miúdo comparou-o com o Eusébio. Dizia que eram mitos. Claro que sentimos a falta dele, mas acho que ocupa um bom espaço.

 

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