Manuel Melo: “Um dia, vou contar ao meu filho”

por , 24 Dezembro, 2019

por CRISTINA FERREIRA fotografia JOÃO FEZAS VITAL maquilhagem e cabelos INÊS FRANCO agradecimento MANJERICA

CRISTINA FERREIRA – Queres falar desse brilhozinho nos olhos?
MANUEL MELO – Este brilhozinho nos olhos tem obviamente a ver com aquilo que está ali, e que esteve aqui connosco, o meu pequeno. O meu pequenino.
C.F. – Sabes que se nota isso?
M.M. – Aqui fora? Não noto. Mas está na minha cabeça.
C.F. – Acompanho-te muito nas redes sociais e foi a partir daí que percebi. Ficaste outra pessoa. Há um novo Manuel depois do nascimento do teu filho, não há?
M.M. – Há. Só reparei nisso exatamente pelo mundo exterior. Por pessoas que me conhecem e me dizem. Senti cá dentro, mas não sabia que era tão transparente.
C.F. – O que achavas que era isto de ser pai?
M.M. – Não fazia ideia alguma. De todas as coisas que vou aprendendo, esta foi aquela que, por mais que me dissessem, estava longe de perceber.
C.F. – Era algo que sempre quiseste? Desde pequeno que dizias que querias ser pai? Que querias ter um, dois ou três filhos… O que é que dizias?
M.M. – Dizia isso. Até há alguns anos dizia, neste caso à Sofia [mulher de Manuel Melo], que já estava na altura e que estava a falar mais a sério. Sempre foi algo que esteve comigo como um desafio e uma prova de amor, porque eu também fui uma prova de amor. Apesar dos meus pais estarem separados desde que eu nasci, conheço-lhes a história.
C.F. – A separação deu-se quando nasceste?
M.M. – Sim, desde que nasci. Não foi por causa de mim. (Risos) Calhou.
C.F. – Não tens memória de veres os teus pais juntos?
M.M. – Não. Tenho uma fotografia de um almoço. Estamos a almoçar os três e eles não se aperceberam do quanto aquilo era importante para mim. A razão daquele almoço não era eu, mas, naquele dia, no meu interior, estava a viver um grande dia.
C.F. – Marcou-te ao longo da tua infância e da tua vida?
M.M. – Sim, eu acho que sim. Nunca sofri muito com isso de uma forma exterior. Mas, considerando todos os psicólogos pelos quais já passei, acho que sim. (Risos) Creio que eles já me explicaram que, de facto, marca uma pessoa. A ausência da mãe marcou-me muito, sobretudo quando era mais novo. Embora nunca tivesse mesmo a noção dessa realidade. Eu não me lembro de sofrer.
C.F. – Ficaste com o teu pai?
M.M. – Sim. Fiquei com o meu pai. A minha mãe teve que se ausentar em busca da sua profissão, em busca de mais um curso. Fiquei com o meu pai e, quando a minha mãe regressou, já não fazia muito sentido, porque já tinha uma vida estruturada, segundo me contam. Até aos três, quatro anos já tinha uma vida tão estruturada que não valia a pena passar para outra estrutura. Então, o meu pai e a minha mãe, os dois, aceitaram essa realidade e eu lá fiquei sem me aperceber do que é que se estava a passar.

C.F. – E essa ausência, compreendeste? Ou não compreendeste mais tarde? Sabes que, mais tarde, é que muitas vezes culpamos e sentimos a ausência.
M.M. – Posso dizer-te que quando vou às memórias antigas é que noto essa ausência. Lembro-me de ser pequenino e olhar para o céu e todos os aviões que passavam eu dizia: “Olha a mãe. Ali, vem a mãe”. Portanto, lembro-me que aquilo me causava algo. Também me lembro da grandiosidade que atribuia da minha mãe por causa disso: “Ela vai num avião”.
C.F. – Acrescentavas essa fantasia?
M.M. – Ela ia num avião. A minha realidade não era nada daquilo. Não era andar de avião, nem sequer ver os aviões. Quanto muito via os comboios na estação. O avião tornava a minha mãe grandiosa.
C.F. – Porque o teu pai sempre foi mantendo essa imagem bonita da tua mãe?
M.M. – Sim.
C. F. – Nunca a destruiu? Às vezes, pode acontecer.
M.M. – Não. Nunca. Eu sei que acontece e qualquer coisa que possa ter acontecido dentro desse espectro foi sempre colmatada, imediatamente a seguir, com muito amor e respeito. Porque, às vezes, já se sabe que solta isto ou aquilo e nem toda a gente é perfeita, mas dentro dessa imperfeição, que é absolutamente normal, sempre vivi com um enorme respeito quer por um, quer pelo outro. Tinha de me adaptar às regras e às disciplinas diferentes.


Leia a entrevista completa na revista CRISTINA nas bancas
ou na app CRISTINA M.

  • Comentários

    Artigos relacionados