Graça Fonseca: “É mais difícil por ser mulher”

por , 3 Abril, 2019

Graça Fonseca, socialista, ministra da Cultura, assume que o serviço público é o que a faz correr. Gosta de pessoas. Gosta de trabalhar em equipa. Depois da Câmara de Lisboa e da Secretaria de Estado da Modernização, chegou à Cultura para cumprir um desafio. Fácil? Não existem cargos públicos fáceis.

Por Patrícia Reis / fotografias Clara Azevedo

 

CRISTINA – Ser ministra da Cultura é um desafio mais difícil do que imaginava?

GRAÇA FONSECA –Ser membro do Governo é sempre um desafio difícil, em qualquer área. Exercer funções públicas é sempre um desafio complexo. Desde 1999 que me dedico exclusivamente ao serviço público, primeiro como investigadora numa universidade pública e, depois, em diferentes áreas de governação, incluindo seis anos como vereadora da Câmara Municipal de Lisboa. Ao longo destes 20 anos aprendi muito, tive de enfrentar desafios difíceis, mas nunca perdi o entusiasmo face ao serviço público, com o que significa termos a oportunidade de concretizar ideias e projetos para melhorar a vida das pessoas, das cidades, do país. E é isso que continuo a sentir como ministra da Cultura. Exercer estas funções é complexo, exige tempo, dedicação, criatividade e muito trabalho, para preparar o futuro e resolver os problemas mais imediatos, mas que tudo vale a pena quando percebemos que o que fizemos mudou um pouco a vida de alguém. Foi isso que senti, por exemplo, quando, decorrido pouco mais de um mês nestas funções, entreguei a medalha de mérito cultural ao grande artista e extraordinário ser humano que é João Cutileiro e resolvemos, finalmente, um impasse de quatro anos para a doação do seu espólio e casa-oficina.

C. – A cultura é elitista?

G.F. –A cultura não é elitista. Existirão, certamente, pessoas, nas quais não me incluo, que consideram que a cultura devia ser apenas para as elites. Isso não transforma a cultura em elitista, apenas qualifica algumas pessoas como elitistas. A cultura está em todo o lado, em muitos e diferentes lugares do nosso país. Todas as semanas vou assistir a manifestações culturais diferentes de Norte a Sul de Portugal. De um bailado em Lisboa a um espetáculo de teatro no Porto, de uma exposição de arte contemporânea em Elvas a um concerto em Viseu, ou em Faro, até às festas de Alvoco das Várzeas, em Oliveira do Hospital, terra da minha avó, tudo é cultura. E o papel do Estado e de quem é, sempre transitoriamente, ministra da Cultura, é reconhecer e apoiar o valor das manifestações culturais, como instrumento fundamental de coesão territorial e de valorização das pessoas.

C. – Como é que se gere a Cultura – que é uma pasta governativa tão abrangente – com um orçamento tão baixo?

G.F. –O orçamento da Cultura tem vindo a aumentar ao longo dos últimos três anos. Todos os anos tem aumentado o valor global e, em particular, tem aumentado o orçamento para o apoio às artes, ao cinema, aos museus e ao património cultural. E quando falamos de orçamento para a Cultura, não falamos apenas do orçamento que está atribuído à área ministerial da Cultura, mas também do orçamento da Educação para projetos como o “Plano Nacional das Artes”, do orçamento dos Negócios Estrangeiros para programas como a “Ação Cultural Externa”, entre outros. A Cultura atravessa diferentes áreas de Governo, não só na dimensão orçamental, mas também através de programas e medidas que levam as artes, a literatura, o cinema às escolas e aos mais novos ou aos portugueses espalhados pelo mundo, e que promovem e apoiam a internacionalização dos nossos criadores, artistas, autores.

C. – Mas não é um grande orçamento. 

G.F. –Não sendo um orçamento elevado, temos vindo a aumentar e a diversificar o financiamento da política pública de cultura. Temos e queremos ir mais longe. Com mais investimento público, com mais mecenato e maior participação das pessoas e das organizações, com mais modernização e simplificação administrativa, com mais inovação tecnológica. É o caminho que estamos a fazer.

C. – Está na política há muito tempo. O que lhe agrada mais? E menos?

G.F. – Estou há muito tempo no serviço público. Política é serviço público. Desde que me licenciei em Direito (Faculdade de Direito de Lisboa), trabalhei sempre para entidades públicas. Fui investigadora e dei aulas em universidades públicas, fui dirigente da Administração Pública e vereadora, passei pela Provedoria de Justiça e desempenhei funções de confiança política em diferentes áreas de governo. Ao longo deste percurso de 20 anos, fiz mestrado e doutoramento, também em universidades públicas. Fui voluntária em várias associações públicas, como a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. Sou uma pessoa que gosta de estar no serviço público, com tudo o que isso significa de bom e menos bom.

C. – O que a motiva? 

G.F. – O que mais me motiva é sentir que o que faço pode mudar um pouco a vida das pessoas e transformar as organizações para as quais trabalho. O que me faz continuar por aqui é olhar para trás e ver a mudança que subsiste ou encontrar alguém que me diz que o seu projeto é um sucesso, porque teve o apoio de um programa que implementei. O que me agrada menos? A exposição pública. Procurei sempre, e ainda procuro, ter o meu espaço de privacidade e liberdade. Aquele espaço onde só entra quem eu quero. Eu não sou uma pessoa diferente das pessoas que estão a ler esta entrevista. Tenho família, amigos, vizinhos. Tenho dias bons e dias maus. Gosto de viajar, de passear na cidade, de ir a um café ler o jornal, de entrar em livrarias e em lojas de rua e de fazer tantas outras coisas simples. A diferença entre mim e quem me lê, é que nem sempre consigo fazer tudo isso apenas como a pessoa que sou, independentemente do cargo que ocupo. Ser reconhecida publicamente faz parte do que faço e, se assim é, o que procuro é que daí advenha algo positivo.

C. – Tem a noção da política como um serviço público. É crucial que se entenda a política assim?

G.F. – A política é isso mesmo: serviço público. É assim que entendo o que faço há 20 anos.

C. – E como definiria esse papel?

O meu papel é servir as pessoas e prosseguir o interesse público, concretizar os compromissos assumidos pelo Governo, imaginar soluções para problemas, inovar nos modos como nos relacionamos com os cidadãos, antecipar o futuro preparando as instituições e as políticas públicas, para as transformações sociais, económicas, tecnológicas. Esta é a minha visão e a minha prática. Trabalhei sempre no setor público, não tenho qualquer vínculo laboral, seja a instituição pública ou a empresa, e assim continuarei. Porque é assim que entendo o serviço público.

C. – Ser mulher, na política, é sempre mais complexo ou não sentiu, ao longo da sua carreira, qualquer discriminação?

G.F. – O género ainda conta, sem dúvida. Ser mulher significa, em muitas dimensões da vida, enfrentar maiores dificuldades de afirmação, de concretização, de progressão. É assim no exercício de cargos políticos, como é nas empresas, nas fábricas, nas lojas, nas universidades etc. Na verdade, a política não será o terreno mais fértil para a discriminação contra as mulheres, não apenas porque existem leis e medidas desenhadas para o evitar, mas também porque os cargos políticos são, por natureza, públicos e, portanto, a discriminação quando acontece adquire, em regra, dimensão pública, o que significa um cuidado acrescido com práticas discriminatórias. Ao longo destes 20 anos de cargos públicos, não vivi situações de discriminação direta e frontal por ser mulher; mas sim, senti em diferentes momentos que ser mulher não era indiferente, que era mais difícil, por ser mulher.

C. – Falou da sua sexualidade numa entrevista ao DN, disse que não voltaria a falar, mas será sempre uma questão recorrente quando se traça o seu perfil. Incomoda ou acredita que o exemplo que deu importa também em termos cívicos?

G.F. – É para mim incompreensível que alguém seja discriminado, atacado ou julgado pela sua orientação sexual. Verdadeiramente, que diferença faz se amo e vivo com uma mulher ou com um homem? Nenhuma! Quem amo é indiferente para o que faço, para a forma como exerço as minhas funções, para o modo como me relaciono com as pessoas. Faz parte de quem sou, mas não diz tudo sobre o que sou como pessoa. É apenas uma parte (importante) da minha identidade. E foi isso que afirmei. Nunca falei sobre a minha vida privada e não o farei.

C.  – Porque…

G.F. – Porque há uma diferença grande entre identidade e privacidade. Na minha vida privada entra quem eu quero. A minha identidade, na medida em que exerço funções públicas, tem uma dimensão que não é apenas minha. Por isso acreditei, e continuo a acreditar, que falar abertamente sobre a minha orientação sexual pode ter algum impacto positivo, na vida de outros. Depois dessa entrevista, recebi muitas mensagens de pessoas a contarem-me as suas histórias, situações de discriminação, de medo e de vergonha, por gostarem de pessoas do mesmo sexo. E é nesses momentos que percebes o muito que ainda falta fazer. Por isso, não, não me incomoda. Se foi importante para alguém, então já valeu a pena.

C. – É muito ativa nas redes sociais. São uma arma ou uma armadilha?

G.F. – Diria que sou moderadamente ativa nas redes sociais. Estou, fundamentalmente, presente em duas redes sociais – Facebooke Instagram– e, em ambos os casos, como pessoa, não como “figura pública”. As redes sociais são uma forma de divulgar o que faço e, em simultâneo, de mostrar um pouco do que sou, do que gosto e das imagens que capto por onde passo, ou do que importa para mim. É uma forma de dizer que não sou apenas uma “política”. Sou uma pessoa que tem família e amigos, que trabalha, que se diverte, que tem animais em casa, que vai ao cinema e sai à noite. Sentir o Outro como seu semelhante, ou empatia, é algo em que acredito profundamente. Porque nos ajuda a tratar todos com respeito, não fazermos ao Outro o que não gostamos que nos façam a nós e aos que nos são próximos. As redes sociais são uma boa ferramenta para gerar empatia. Mas também são uma ótima ferramenta para disseminar o ódio, a desconfiança, a suspeição. Por isso, diria que as redes sociais são ambos, uma arma e uma armadilha. Como em tudo na vida, devem ser utilizadas com moderação e bom senso.

C. – Onde se vê daqui a dez anos?

G.F. – Não vejo, na verdade nunca me vi no futuro. Não sei onde vou estar daqui a dez anos, não tenho planos. Sei que terei 57 anos e que, provavelmente, vou continuar a fazer o que sempre fiz. Trabalhar com pessoas e para as pessoas, desenvolver projetos com impacto social, encontrar soluções para problemas. E ser feliz.

 

 

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