Uma mulher árabe feminista

por , 25 Outubro, 2017

Eu Matei Xerezade – confissões de uma mulher árabe em fúria, o livro de Joumana Haddad, chega agora a Portugal. A escritora e ensaísta esteve em Lisboa para o Encontro das Mulheres nas Artes e explica como é difícil querer ser livre no Médio Oriente e que as mulheres não se podem desvalorizar. 

POR Diana Chaves  | FOTOGRAFIA D.R.

CRistina – Matou Sherezade porque ela era uma vítima, não uma heroína. Diz que as mulheres árabes poderiam fazer mais pela sua emancipação. É realmente assim em países como a Arábia Saudita, por exemplo?

Joumana Haddad – Aplica-se às mulheres em todos os lugares. A questão do machismo é universal e a maioria dos países, mesmo os mais avançados, ainda sofre de diferentes formas de discriminação e abuso. O mínimo que podemos fazer é defender-nos e recusar a desvalorização dos nossos direitos, do nosso papel e da nossa voz neste mundo. Cada uma de nós tem um papel a desempenhar, e esse papel varia de pessoa para pessoa, dependendo das nossas circunstâncias e habilidades. Eu acredito em pequenos gestos que podem transformar o mundo num lugar melhor. Começa por ser crucial mudar a forma como nos avaliamos, enquanto mulheres. Por causa da forma como fomos educados (“manter o silêncio”, “boas meninas não fazem isso” etc.), muitas de nós têm uma perspetiva errada do que uma mulher é capaz de fazer. Continuo a afirmar que as mães têm um papel fundamental a desempenhar, nesta luta pela nossa dignidade, educando as suas filhas para acreditar em si mesmas e no seu potencial, para perseguir sonhos e ambições. Se não podem fazê-lo, pelo menos deem o seu melhor, a fim de que se torne possível para as suas filhas. Não lhes digam que o casamento é a maior conquista na vida de uma menina! Infelizmente, as mulheres, às vezes, podem ser o seu pior inimigo.

C. – A fúria é a sua musa principal?

J.H. – Não, não fúria, nada disso! A minha musa é antes a Justiça. Estou indignada com a falta dela neste mundo, e com a indiferença de algumas pessoas, em relação a essa escassez. Eu acredito na integridade, acredito na transparência, acredito na humanidade. Tenho uma natureza apaixonada e não posso fazer as coisas pela metade ou de maneira moderada. Se testemunho uma injustiça, preciso de fazer alguma coisa contra isso. Considero que essa é uma parte intrínseca do que significa ser ‘humano’. Não devemos apenas buscar o nosso próprio bem-estar, mas também o bem-estar de outros que não têm a sorte de poder lutar por si mesmos. Sou bastante determinada, até mesmo teimosa. Se eu tiver um objetivo em mente, não descanso até o atingir. Isso pode ser interpretado por alguns como “fúria”.

C. – Como foi crescer no meio de uma guerra real, em Beirute?

J.H. – Crescer no meio de uma guerra é o maior e mais difícil desafio que uma criança pode enfrentar. Tinha cinco anos quando a guerra começou. Não foram permitidos sonhos, nem esperanças, nem planos: só havia medo à minha volta, e a necessidade de sobreviver ao dia. Nós habituámo-nos a ver cadáveres, casas destruídas, a ouvir o choro de mães e de pais, pessoas a serem torturadas. Habituámo-nos a acordar, a meio da noite, com o assobio das explosões das bombas, a correr para os abrigos aterrorizados. Em suma: habituámo-nos à ideia de existir uma alta probabilidade de morrer. No meio de todo aquele horror e violência, ler salvou-me a vida e a alma. Os livros eram como pão na minha vida diária. Comecei a ler muito jovem e os livros tornaram-se uma fuga da dura realidade. Permitiram-me ter múltiplas vidas e aspirações, pelas quais aprendi a lutar ao longo da minha vida.

C. – Lançou uma revista cultural erótica em Beirute, em 2008.

J.H. – Eu estava cada vez mais frustrada, porque a nossa bela língua árabe tinha sido injustamente privada de uma parte importante do seu potencial vocabulário e imaginação. A maioria dos temas, relacionados com o corpo, tornou-se um tabu na nossa história recente; porém, a nossa herança literária antiga está carregada de obras eróticas, que fariam ruborizar até o escritor ocidental mais emancipado. E assim surgiu a ideia de fundar uma revista cultural sobre este assunto. Pensei que seria diferente, forte e necessário. Adoro batalhas difíceis, e esta foi definitivamente uma.

C. – Nunca sentiu medo? Recebeu várias ameaças.

J.H. – Não sou um invencível sobre-humano. Todos experimentamos o medo, é uma parte natural das nossas vidas diárias, especialmente quando alguém recebe ameaças de morte ou hate mail. O meu truque era, e ainda é, não permitir que me intimide, nem que me impeça de escrever o que eu quero escrever, de fazer o que preciso de fazer e de viver de acordo com as minhas convicções. Todos os dias, precisamos de acordar, olhar para os nossos medos nos olhos e dizer: “eu vou ultrapassar-te outra vez”. É uma batalha sem fim, que temos de realizar e tentar ganhar regularmente.

C. – Qual foi a pior coisa que sofreu? E a sua maior felicidade?

J.H. – A pior é, definitivamente, a guerra. A violência é o elemento mais cruel com que se pode crescer, e esse foi o meu caso, e o caso de muitos outros libaneses da minha geração. Quanto à minha maior felicidade, é ser a mãe extremamente orgulhosa de dois jovens incríveis, que são decentes, trabalhadores e humanistas.

C. – Escreve no belo poema que termina as suas “confissões”: Eu sou o composto dos homens que me amaram e que não amei. / Eu sou os que amei e que não me amaram, /os que não amei e que não me amaram, / e os que imaginaram que eu os amava / e imaginaram que não me amavam. / Eu sou o composto do único homem que amo”

Os homens assustam-se consigo?

J.H. –  Obviamente. Mas não “homens” em geral. Apenas um certo tipo: o tipo de homem que não tem uma autoconfiança real e que precisa de provar, a si mesmo e aos outros, que é forte se usar indevidamente o seu poder, se oprimir pessoas mais fracas ou se for um macho ridículo. Um homem machista é, antes de mais, um homem inseguro, fraco, que tenta recuperar a sua masculinidade, ao exercer domínio e violência sobre outros. Nunca me interessei por esse tipo de homens; logo, é uma vitória, mantém-se longe de mim! Homens que são intimidados, por mulheres resistentes e independentes, à procura das mães que os amamentaram e que lhes obedecem, não querem parceiras reais. Por que é que eu gostaria disso na minha vida?

C. – O que está a escrever de momento?

J.H. – Acabei de escrever uma novela inspirada na vida da minha avó materna, que era arménia, e que sofreu os horrores do genocídio arménio, quando tinha apenas três anos. Suicidou-se quando tinha sete anos. Sempre quis transformá-la numa personagem fictícia, como forma de homenagear a sua vida e as suas lutas. O romance conta as histórias de quatro mulheres de quatro gerações, que testemunharam quatro guerras ferozes sucessivas no Médio Oriente, durante o período de um século inteiro: o genocídio arménio (1915), o conflito israelo-palestino (1948), a guerra civil libanesa (1975) e a guerra síria (2012).

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