Pedro Chagas Freitas: «Pedimos-te que sejas a revolução»

por , 25 Setembro, 2019

Pedro Chagas Freitas escreve uma carta ao filho, uma carta que é um pedido e uma orientação num exercício de amor que expõe o escritor nas suas expectativas e crenças.

Por Pedro Chagas Freitas

Pedimos-te que ames.
Pedimos-te que sejas o menino mais rebelde do mundo, e o adulto mais respeitador do mundo.

Pedimos-te que olhes.
Olha para quem te ama, olha para quem não te ama, olha para quem nem conheces ainda. Olha. Olha para o começo e para o fim das coisas, olha para a bola que corre no chão, corre atrás dela, e se não tiveres uma bola para brincar, pega num par de meias, ou numa pedra, e brinca com ela, faz dela a tua bola, faz dela a tua alegria.
A alegria consiste quase sempre em conseguir transformar uma meia numa bola de futebol.

Pedimos-te que caias.
Pedimos-te que caias sem medo, ou com medo, é melhor com medo, mas que nunca seja o medo a impedir-te de cair, porque só cai quem tenta voar, ou pelo menos saltar. Pedimos-te que percebas que o salto é o começo do voo, como a corrida é o começo do salto, como a caminhada é o começo da corrida, mas também te pedimos que esqueças tudo isso quando é urgente correr, mesmo quando nunca caminhaste, ou quando é urgente voar mesmo quando nunca saltaste. Pedimos-te que meças as consequências, mas que não sejas o que as consequências te podem tirar.
A alegria consiste, quase sempre, em conseguir não ser o que as consequências do que fazemos nos tiram.

Pedimos-te que chores.
Pedimos-te que não deixes de querer só porque pode doer, de abraçar só porque pode ser difícil despregar, de beijar só porque pode viciar. Pedimos-te que sejas o homem que se vicia no que gosta, e que gosta muito, e que gosta sempre, e que ensina até os outros a gostarem consigo. Pedimos-te que não te controles quando o controlo só serve para apagar, pedimos-te que prefiras a luz, que prefiras o caminho e nunca o obstáculo, mas que, se houver obstáculo, continues o teu caminho. Pedimos-te que sejas o que não poderias entender que não fosses, pedimos-te que não cales o que te magoa, que não escondas o que te pode salvar, que não receies pedir, e exigir, e dar, e ir, mesmo que não saibas bem para onde, porque por sorte todos os caminhos vão dar a ti se os fizeres inteiro, se os fizeres contigo, sempre contigo.
A alegria consiste quase sempre em andarmos connosco, e não com o que os outros querem que nós sejamos.


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