Socorro! O meu filho não dorme!

por , 21 Fevereiro, 2018

Há quem saia de casa com os chinelos nos pés, quem ponha o lixo nos armários e os talheres no caixote. Há ainda aqueles que, no parque da empresa, tiram bilhete, e, para picar o ponto, usam o cartão do estacionamento. São os mesmos que, se não fizerem lista de compras, não sabem o que vão comprar e, se fazem, esquecem-se disso. É fácil adivinhar de quem falamos?

Por: Júlia Oliveira

São mães e pais e não sabem, há muito, o que é dormir uma noite de seguida. A maternidade, apesar das suas vantagens, leva-os à exaustão. Sonham que estão a dormir, fazem turnos rotativos com o resto da família e chegam, mesmo, a tirar férias dos filhos. Como se não bastasse, há ainda a má-disposição e a falta de paciência, de quem não dorme bem há dias ou meses.

Aumento ou perda substancial de peso, queda de cabelo, falha da memória a curto prazo, irritabilidade e falta de energia. A privação do sono provoca sérias consequências na saúde do ser humano. Não é por acaso que, segundo alguns relatos, foi utilizada como técnica de tortura em interrogatórios. Filipa Sommerfeldt Fernandes é especialista em ritmos de sono. Considera que a maioria das pessoas ainda não sabe a importância do descanso no ser humano e, em especial, nos bebés e crianças: “Há cerca de um ano chegou-me aqui uma mãe cujo marido tinha falecido por adormecer ao volante. Não dormiam uma noite de seguida há mais de dois anos. Foi uma história que me marcou para sempre”.

O Luís ia dormir para o escritório, para poder, finalmente, descansar uma ou duas horas antes de tocar o despertador. Mudou de cargo na empresa precisamente quando os seus gémeos, com cinco meses, deixaram de conseguir dormir. O novo trabalho requeria maior responsabilidade e capacidade de concentração, que o Luís deixou de ter. “Às vezes, o cansaço era tanto, que sentia que chegava ao meu limite. O trabalho era o meu escape. Ao contrário de toda a gente, era lá que eu realmente descansava. Mas, para a Ana, era pior, porque passava 24 horas por dia com eles”. Foram algumas, as vezes em que ia adormecendo ao volante, e não sabe se tudo teria sido possível sem a ajuda dos sogros e da cunhada.

Para Ana, mãe do Pedro e do Manuel e esposa do Luís, não foi fácil desculpabilizar-se: “Fui acompanhada por uma psicóloga. Ajudou-me, entre outras coisas, a não me sentir culpada por deixar os meus filhos com outras pessoas, mas eu precisava mesmo de descansar e, de outra forma, era impossível”.
São várias as razões de os bebés não dormirem: podem estar incomodados fisicamente, viver uma fase de desenvolvimento específica, ter o dia desorganizado a nível de sono e alimentação, ou ter pouco tempo de pais e brincadeira. “A maioria dos bebés e crianças pequenas não dorme por fatores comportamentais, associados ao que os pais lhes ensinaram. A “culpa”, com muitas aspas, pode ser dos pais. É quase sempre dos pais. Mas não é uma culpa má, é a culpa de alguém que ama muito e que ficou algures perdido, sem saber o que fazer”, explica a especialista.

Os pequenos Pedro e Manuel, agora com nove meses, nasceram ao fim de apenas 33 semanas. São gémeos verdadeiros e fruto de uma gravidez mal dormida. Têm refluxo, que os obriga a estar a maior parte do tempo na vertical, lábio leporino e, no caso do Manuel, fenda palatina. Nunca adormeceram deitados e não sabiam mamar quando saíram do hospital, seis semanas depois de nascerem.

No início comiam de três em três horas e só acordavam para mamar. Aos cinco meses, tudo mudou. Foram operados ao lábio, e o pós-operatório foi muito complicado. A partir da intervenção, passaram a acordar a cada 45 minutos. Começou a ser uma loucura. Não dormia mais de 15 minutos seguidos. Nunca acordavam os dois ao mesmo tempo e, para piorar, não dormiam durante o dia”. Ao longo de alguns meses, Ana contou com a ajuda dos pais, que se mudaram para a casa da família, a fim de poder ajudar o casal. Tratavam dos pequenos por turnos, para dividir o trabalho, e ainda assim não lhes sobrava tempo, especialmente à mãe: “não conseguia fazer mais nada além de estar com eles. Só pensava no que havia de fazer. É desesperante, de chegar mesmo à loucura.

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