Raminhos: “O meu pai, agora, está sempre a dizer: ‘ Paguei um curso de jornalista e saiu-me um palhaço’

por , 11 Janeiro, 2019

É pai das Marias. Marido da Catarina. Humorista e carrancudo. Quis ser padre e só lhe falta uma coisa: encontrar a paz.

POR CRISTINA FERREIRA | STYLING CAROLINA FREITAS | FOTOGRAFIA RUI VALIDO | MAQUILHAGEM JOANA MOREIRA | CABELOS CRISTINA RODRIGUES | Agradecimentos: AJ Navalho, Antiquoeste – Antiguidades, Velharias, Curiosidades (Torres Vedras), Fábrica do Pão, Laskasas e Mattel.

 

CRISTINA FERREIRA – Olha lá, isto de ser humorista fora do palco é lixado. Não é?

ANTÓNIO RAMINHOS – É uma grande bosta. (Risos) É porque as pessoas estão sempre à espera que eu esteja super contente e super feliz. E sou um bocado ao contrário. Sou carrancudo. Aliás, já me viste na rua.

C.F. – És outra pessoa na rua. Um bocadinho.

A.R. – Não sou outra pessoa. Como é que hei de explicar? Quando vou a programas de televisão, já vou na expectativa de fazer porcaria ou dizer coisas que não é suposto dizer.

C.F. – Sabes que te convidam para isso?

A.R. – Convidam-me para isso, como é óbvio. E eu também gosto, por isso já vou com aquele ar e a pensar no que vou fazer e dizer. Agora, quando vou na rua, estou a pensar na minha vida. Até posso estar a pensar em trabalho, em piadas, como às vezes acontece, geralmente vou com um ar sério.

C.F. – A tua vida é assim tão sisuda?

A.R. – A minha vida é perfeitamente normal. Tenho uma vida normal, com muita chatice em casa, é muito cansativo por causa das miúdas, porque faço questão de passar muito tempo em casa com elas. As pessoas, às vezes, têm a imagem de que a nossa vida, a vida de quem está neste lado, é sempre espetacular. Ainda por cima, porque nas redes sociais só digo porcaria. É muito raro falar dos meus problemas, nas redes sociais. Às vezes, partilho histórias de outras pessoas, mas não gosto de me lamentar nas redes sociais. As redes sociais, para mim, são um veículo de trabalho e de boa-disposição. Não gosto de alimentar os problemas de outras pessoas com os meus problemas. Sei que há muita gente que vai lá só para ver as desgraças, e para elas próprias, ficarem mais deprimidas. Então, por isso, não falo muito da minha vida. O que é que acontece? As pessoas olham para mim e dizem: ‘Olha este palhaço. Deve fartar-se de ganhar dinheiro e deve ter uma vida espetacular’. Mas não.

C.F. – Às vezes, a obrigatoriedade de criar um conteúdo divertido não é traumatizante?

A.R. – É, em vários momentos.

C.F. – Quando não te sai nada.

A.R. – Faço para a rádio, para a TSF, todos os dias. E, às vezes, leio aquilo e digo: ‘Esta merda não tem piada nenhuma’. Tenho de tentar extrair, de cada texto, pelo menos uma piada ou algo que tenha graça. Algo que as pessoas possam prender.

C.F. – Tens que te rir com as tuas próprias coisas?

A.R. – Não. Não me rio muito com as minhas coisas. (Risos) Curiosamente, rio-me com coisas… Como é que explico isto? A minha mulher diz que sabe quando estou a criar. Ela diz que pode estar a dizer uma coisa séria e eu estou com aquela cara de riso, aí sabe que estou a criar, porque estou a pensar noutra coisa qualquer. Estou a escrever, e fico entusiasmado e faço as piadas. E há piadas que sei logo que vão funcionar. Há outras que vou ter que experimentar; mas há aquelas a que acho mais piada, e, quando as conto à minha mulher, todo entusiasmado, ela diz que não têm piada.

C.F. – Ela é sempre a primeira a saber?

A.R. – Tenho um conjunto de pessoas. Aquilo a que se chama os comedy buddies. São pessoas que estão na mesma frequência de comédia que tu. E podem ou não ser pessoas ligadas à comédia.

C.F. – E testas as coisas com elas?

A.R. – Tenho amigos comediantes. O Vasco Correia, o Luís Filipe Borges, o Boinas.

C.F. – Ligas? Do género: ‘Olha lá…’

A.R. – Trocamos mensagens. Envio mails. Eles enviam-me mails com textos também. E vamo-nos ajudando uns aos outros. Ajuda teres alguém de fora, a ler as tuas coisas, e pode ter mais ideias.

C.F. – As tuas filhas acham-te graça?

A.R. – Se elas me acham graça? Acham-me chato. Acham-me, sobretudo, chato, porque eu ando sempre atrás delas e dou-lhes palmadas no rabo. Essas palmadas têm um objetivo. Quando elas forem mais velhas e o namorado lhes der palmadas no rabo, elas lembram-se é do pai. (Risos)

 


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