Sérgio Conceição: “Gosto de desafios”

por , 23 Julho, 2018

Sérgio Conceição, 43 anos de idade, treinador do Futebol Clube do Porto. Campeão Nacional. Pai de cinco rapazes, casado há 23 anos com o seu grande amor. Não gosta de falar da sua vida pessoal e sabia que não se ia discutir as táticas de um jogo de futebol, mas como gosta de desafios e não os teme, aceitou dar esta entrevista.

POR CRISTINA FERREIRA | FOTOGRAFIA GONÇALO CLARO | STYLING CAROLINA FREITAS | MAQUILHAGEM CRISTINA GOMES | CABELOS HELENA VAZ PEREIRA PARA GRIFFEHAIRSTYLE

 

CRISTINA FERREIRA: Senhor Campeão, como está? (Risos)

SÉRGIO CONCEIÇÃO: Muito bem, obrigado.

C.F. – Primeiro ano e logo campeão. Estavas à espera disto?

S.C. – Sabia que ia ser difícil, que tínhamos um trabalho complicado pela frente. Até porque o Benfica tinha ganhado nos quatro campeonatos. Esteve forte durante a época e está forte neste momento. Penso que foi um campeonato bastante competitivo até um certo momento, com as três equipas. Sabia das dificuldades.

C.F. – Até porque a tua equipa era uma equipa low cost.

S.C. – Sim, era uma equipa de baixo custo. Mas eu conhecia bem o que era a estrutura do Futebol Clube do Porto. Também conhecia bem os jogadores que compunham o plantel. Tinha conhecimento de alguns jogadores emprestados que tinham qualidade para fazer uma época de acordo com aquilo que eu esperava deles.

C.F. – Não tiveste medo quando aceitaste o convite?

S.C. – Eu, normalmente, não tenho medo. Para mim, os desafios são aliciantes. Eu gosto de desafios. Gosto de me desafiar a mim próprio. Aliás, a minha vida toda foi um desafio grande e continua a ser. Eu acho que voltei a um clube que, no fundo, me diz tanto e numa situação complicada, depois de um clube rival ganhar quatro campeonatos seguidos, porque senti que era o momento de abraçar o projeto e tentar fazer aquilo que conseguimos fazer no final – ganhar o campeonato, que era o principal objetivo.

C.F. – Este era o teu sonho? Ser campeão pelo Futebol Clube do Porto, enquanto treinador?

S.C. – O meu sonho era conseguir ter sucesso num mundo de que eu gosto muito. Sou um apaixonado pelo futebol. Gosto, sinceramente, do meu dia a dia, de ir para o trabalho.

C.F. – Nunca vais chateado?

S.C. – Isso é diferente. (Risos) Mas gosto muito do meu trabalho. E o Futebol Clube do Porto é um clube que, no fundo, me deu a mão quando eu era mais jovem e que me ensinou muita coisa.

C.F. – As vitórias enquanto treinador saboreiam-se de forma diferente de uma vitória enquanto jogador? Notaste diferença nisso?

S.C. – Eu acho que pela idade também. Estamos mais maduros e percebemos, no fundo, aquilo que conquistamos. São situações diferentes. Eu acho que o sabor da vitória é o mesmo. A consciência dessa vitória é que é um bocadinho diferente. Quando era jovem passei pelo FC Porto e, enquanto sénior, dois anos numa fase inicial da minha carreira. Depois, quando voltei de Itália, fui sempre campeão. Tive essa felicidade. Era quase normal ser-se campeão no FC do Porto. Hoje é diferente. E também por isso, percebendo esse gosto, esse sabor tão bom que é o sabor da vitória, este campeonato teve um sabor especial.

C.F. – E sentes que os portistas com esta vitória te abraçaram completamente a ponto de não te deixarem sair este ano? Alguns desconfiaram de ti ou não?

S.C. – Sim. Isso é absolutamente normal e eu estou habituado. E é motivo para me dar força, no meu dia a dia. Não olho muito para aquilo que as pessoas possam pensar ou dizer. Foco-me essencialmente naquilo que é o meu objetivo e naquilo que posso fazer.

C.F. – És imune à crítica?

S.C. – Não. Eu acho que quem afirma que não liga ao que se diz, ou ao que dizem nesta profissão que é tão falada, não está a dizer a verdade. Quem é apaixonado por aquilo que faz gosta de saber o que as pessoas pensam também. Não que isso seja fundamental para o meu caminho e os meus objetivos. Isso não vai depender de ninguém. Ou melhor, ninguém vai conseguir desviar-me daquilo que eu quero. Depois, posso não conseguir. (Risos)

C.F. – E esse caminho começou muito cedo. Em pequenino.

S.C. – Sim.

C.F. – O futebol esteve sempre na tua vida?

S.C. – Sempre. Desde miúdo, o futebol de rua.

C.F. – De aldeia.

S.C. – Futebol de aldeia.

C.F. –São teus amigos ainda, alguns deles?

S.C. – São. Obviamente que, com o percurso que eu tive e saindo da minha aldeia com 15 anos, fui perdendo o rasto e alguns contactos que tinha com gente da minha idade. Mas tenho sempre um carinho muito grande e uma vontade muito grande de voltar à casa e à aldeia onde nasci.

C.F. – Esse menino da aldeia, na altura, sonhava com voos mais altos ou não? Ou o futebol era uma coisa só para se jogar?

S.C. – Eu via o futebol como uma oportunidade que tinha para deitar cá para fora tudo o que eu sentia.

C.F. – O que é que sentias?

S.C. – A minha infância, naquilo que era o amor dos meus pais, da minha família e dos meus irmãos. Fomos sempre uma família muito unida. Mas houve situações muito difíceis que tivemos de ultrapassar. Nomeadamente, os poucos recursos financeiros que tínhamos. Éramos uma família pobre da aldeia.

C.F. – Eram quantos irmãos?

S.C. – Éramos oito.

C.F. – O que é que o teu pai fazia?

S.C. – O meu pai trabalhava nas obras. E a minha mãe estava em casa a tratar dos meus irmãos. De alguns dos meus irmãos. Eu sou o penúltimo. Sou o sétimo dos oito. Todos começaram a trabalhar cedo e, entretanto, com a diferença de idades que temos, que ainda é alguma, eles foram casando e saindo de casa. Eu fui ficando em casa. Com 15 anos, houve a possibilidade de sair para o Futebol Clube do Porto, depois de representar a Seleção Nacional pela Académica de Coimbra, que era o clube onde eu jogava. Foi a partir daí que comecei a pensar mais seriamente no futebol. Seriamente, atenção, porque o futebol é para ser vivido de uma forma séria, mas sem nunca meter no nosso dia a dia aquilo que é o nosso lado sentimental, aquilo que é o lado apaixonado da nossa profissão.

C.F. – Para uns pais humildes (que os filhos tinham de trabalhar para ajudar em casa) como é que eles viram essa tua entrada no futebol? Para eles era brincadeira, ou levaram isso a sério?

S.C. – Se queres que te diga, aconteceu tudo de forma natural, até aos 15 anos. Porquê? Porque eu jogava futebol na rua e, na Escola Preparatória do Taveiro, onde estudava, houve uma professora que estava ligada à Académica e que me levou a fazer os treinos de captação e, entretanto, fiquei.

C.F. – Então foi uma mulher primeiro a olhar para ti?

S.C. – É verdade. Foi a professora Filomena. Entretanto, fiquei na Académica e aquilo era visto de uma forma natural. O meu pai não pensava naquilo que era eu, Sérgio Conceição, a ser um futuro futebolista profissional do Futebol Clube do Porto. Não pensava. Deixava-me jogar, porque eu adorava jogar futebol. Era importante que nas férias não houvesse futebol, porque tinha de trabalhar com ele. (Risos) Aí já complicava a coisa.

C.F. – Ias ajudá-lo nas obras?

S.C. – Claro.

C.F. – E custava-te na altura ou aquilo também era encarado de forma natural?

S.C. – Custava-me pelo tempo que deixava de ter, para brincar e andar com os outros miúdos da minha idade. Mas eu compreendia as dificuldades e, por ter a noção das dificuldades que tínhamos, e em que vivíamos, encarava isso de forma natural. Havia essa aceitação da minha parte. Nunca foi complicado.

C.F. – Achas que essa dureza te formou?

S.C. – Acho que sim. Acho que foi muito importante para aquilo que sou hoje. Para aquilo que é o meu caráter, para a minha personalidade e a minha forma de me relacionar com os outros, sem dúvida alguma.

C.F. – É uma luta.

S.C. – Foi sempre uma luta muito grande. A minha vida foi sempre pautada por momentos marcantes. Eu lembro-me de assinar pelo FC do Porto, depois de conseguirmos dar a volta ao meu pai, para me deixar ir para uma cidade grande como o Porto. Aconteceu que, depois de dois, três meses de insistência – quer por parte dos dirigentes do Porto quer pela minha parte – em ir jogar para o FC Porto, no dia a seguir à assinatura do contrato o meu pai faleceu.

C.F. – Como é que um jovem de 16 anos encara isso?

S.C. – Foi muito difícil, na altura. Hoje em dia, olho para esse período e percebo que podia não ter conseguido atingir o nível que eu consegui, enquanto jogador, mas sempre encontrei na família e na religião uma forma de me preencher.

C.F. – Nessa altura já ias à missa? Já eras muito religioso?

S.C. – Sim. Sempre fui.

C.F. – Então, como é que Deus te o levou?

S.C. – Isso é uma questão complicada. Acho que a vida é como é. Cada um anda aqui, tem um trajeto e um caminho a percorrer e, dentro daquilo que é a sua vida, tem de enfrentar as situações que são menos boas. Temos de estar preparados. Temos de saber superar e saber dar a volta. Fazer dessas fraquezas forças.

C.F. – O teu pai não te viu sequer um dia jogar pelo FC do Porto?

S.C. – No sítio onde o meu pai está, está certamente a ver e está feliz. Foi um momento muito difícil para mim. Porque dentro daquilo que era um pai – hoje teria 83 anos –, era um pai de aldeia, trabalhador, com princípios fantásticos e que me foram transmitidos. Era um tempo diferente. Hoje as coisas evoluíram de uma forma incrível. Foi uma educação rígida, mas eu adorava o meu pai. A minha mãe continua a ser o meu grande ídolo.

 


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