Sónia Brazão: “Eu precisei de silêncio. (…) O silêncio foi feito com amor. Com aqueles que eu sei que são meus”

por , 21 Abril, 2018

Precisou de tempo e de silêncio para falar. Passaram sete anos. Uma explosão queimou-lhe 92% do corpo. Sónia recorda uma dor inimaginável. E a outra dor. Que ficará para sempre.

Por Cristina Ferreira | Produção Mariana Couto e Olivia Rugani | Realização Filipe Carriço

CRISTINA FERREIRA – Bem-vinda, Sónia.

SÓNIA BRAZÃO – Muito obrigada.

C.F. – Tenho de começar pela pergunta que toda a gente faz: o que é que tu andas a fazer? Porque tu desapareceste. (Risos) E toda a gente quer saber.

S.B. – Ando com a minha vida normal, depois de tudo de que se falou e de tudo aquilo que se disse. A minha avó costumava dizer uma coisa: que para curar uma grande ferida na alma, eram precisos quatro ingredientes – tempo, amor, silêncio e arte. Eu não fugi da arte. A arte está comigo todos os dias, através da escola onde estou a dar aulas.

C.F. – Aulas de quê?

S.B. – Aulas de técnica de representação. A escola é, basicamente, uma amostra de tudo aquilo que está disponível hoje em dia, no mundo audiovisual, quer seja na representação, quer seja na apresentação. Até mesmo nas redes sociais, aprende-se como estar corretamente. Hoje as crianças têm tantas escolhas obrigatórias, para fazer na escola, e em que a maior parte delas não sabe, nesta vida, como é que se faz. Como é para lá das câmaras.

C.F. – Tens alunos de que idade?

S.B. – Tenho alunos entre os 11, 12 anos, consoante a maturidade. Somos um bocadinho mais sensíveis a escolher, vemos se eles estão ou não preparados emocionalmente, para o desafio, e os 17. Alguns querem muito fazer o curso aos 18 anos. E é engraçado, mesmo com esta diferença de idades, eles acabam por se ajudar muito entre eles. Tem sido uma altura muito interessante.

C.F. – Isso tem a ver com a arte. Falaste também em silêncio. Precisaste de silêncio?

S.B. – Eu precisei de silêncio. De ouvir o silêncio novamente. De não ouvir o meu nome. Precisei de me ouvir outra vez a mim. Não há Sónia Brazão, mas há Sónia Margarida. (Risos)

C.F. – É assim que a tua mãe te chama?

S.B. – É. ‘Sónia Margarida’. (Risos)

C.F. – E esse silêncio foi feito como? Sozinha?

S.B. – Foi feito com amor. Com aqueles que… Com os meus. Com aqueles que eu sei que são meus, com a minha mãe, o meu irmão, as minhas sobrinhas. Com os meus verdadeiros amigos.

C.F. – Porque é que deste tanto ênfase a “verdadeiros”?

S.B. – São aqueles que nos conhecem. Nós temos muitos amigos, mas, às vezes, quando temos uma vida social tão ativa, não temos tempo para aqueles que cresceram connosco, que jogaram connosco à apanhada. Vamos indo, uma coisa atrás da outra, tu sabes bem como é isso, e depois temos pouco tempo. E eu fui buscar esse tempo para voltar a estar com as minhas raízes, com o meu chão, para que a Sónia Margarida voltasse a cantar, a sonhar.

C.F. – Estás aí aflita, porque o tempo que já passou foi muito tempo, mas parece que foi ontem.

S.B. – Parece que foi ontem. São coisas que marcam.

C.F. – Marcaram-te ao ponto de esta Sónia Margarida já não ser a mesma?

S.B. – A Margarida é, a Brazão não.

C.F. – O que é que se perdeu da Brazão?

S.B. – Não se perdeu nada. Ela só se completou. A Margarida continua a mesma, a essência continua. Foi para lá que eu voltei. E é lá que eu me encontro. A Brazão perdeu algumas certezas.

 

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