“Sou transplantada, mas isso não tem de ser mau”

por , 26 Setembro, 2018

As histórias que seguem são sinónimas de vitória. Beatriz, Inês e Sara são transplantadas. Receberam o órgão de que precisavam para viver, e ganharam uma nova vida. São histórias de sucesso de quem, apesar de todas as dificuldades, escolheu sempre não desistir.

Por: Margarida Menino Ferreira

“Acredito que, apesar de todas estas situações, os períodos estáveis compensam. Fiz a escolha certa quando decidi fazer o transplante” –  BEATRIZ SALGUEIRO

“Sou transplantada, mas isso não tem de ser mau. É um novo capítulo, com novas experiências e aprendizagens que me fazem dar ainda mais valor à vida que tenho”. Beatriz Salgueiro tem 25 anos, e considera-se uma pessoa orgulhosa e persistente. Há um ano realizou um transplante pulmonar, e acredita que isso lhe deu a possibilidade de voltar a viver.

Com apenas 14 meses teve uma pneumonia que deixou sequelas graves nos seus pulmões. Durante os anos seguintes, foram várias as infeções respiratórias e os períodos de internamento. Fazia aerossóis duas vezes por dia, e passou a usar oxigénio aos 23 anos de idade. Apesar dos períodos estáveis, o quadro clínico de Beatriz piorou no ano do surto de gripe A, em Portugal, e a necessidade de recorrer ao transplante foi imediata. Não conseguia correr mais do que uns poucos metros, nem andar um quarteirão sem parar para descansar. “Aprendi a viver com essas condicionantes, mas foi uma exigência muito grande para uma criança ou uma adolescente, que quer ser livre para fazer o que quiser, mas vê que não consegue, não pode”, explica. No ano anterior ao transplante, as complicações na sua saúde aumentaram exponencialmente e Beatriz teve de começar a usar oxigénio. “Estava a começar o meu estágio curricular, e foi muito complicado. Sempre odiei que olhassem para mim, não gosto de chamar à atenção, e as cânulas do oxigénio, inevitavelmente, viram as cabeças das pessoas. Provavelmente é por mera curiosidade, mas para quem as usa não é nada agradável. Além disso, foi nesse momento que a minha doença se tornou evidente, até para quem não me conhecia. Antes, quando eu parava para descansar, era só uma pessoa sentada. Com os tubos no nariz, já não é essa a mensagem que passa. Torna-se óbvio que se passa alguma coisa”.

Beatriz realizou o transplante em novembro de 2016. Tinha 24 anos e muita esperança. Entrou oficialmente para a lista de espera de transplante em setembro de 2016. Esperou dois meses, e recebeu quatro chamadas para o transplante, sendo que só a última se concretizou. “O mais complicado era esperar pelas chamadas, e pensar ‘será esta a minha vez?’. Tentava continuar a fazer a minha vida normalmente, mas isto estava sempre presente”. Quando o telefone tocou, pela quarta vez, os nervos invadiram o corpo de Beatriz. Nunca tinha tido medo até ali, só nervosismo, por saber que se tratava de uma cirurgia de 12 horas, para transplantar os dois pulmões, e que o pós-operatório seria longo. “Acho que só tive medo durante uma intercorrência, após o transplante. Fiquei com um nível tóxico elevado, devido a um dos medicamentos, porque o meu corpo não o sintetizou, e acabei por ter manifestações físicas. Movimentos involuntários das pernas, dos braços e das mãos, e a visão turva. Foi um dia muito complicado. Fui melhorando nos dias seguintes e não fiquei com sequelas permanentes, mas tenho de admitir que era um dos meus grandes medos”.

Passaram 21 meses desde que Beatriz recebeu dois novos pulmões. Resolveu os problemas respiratórios que tinha, mas acredita que não seja uma solução milagrosa. A quantidade de medicação que toma, e vai ter de tomar para sempre, assim como os cuidados com a alimentação e com o contacto com pessoas doentes, são algumas das condicionantes que Beatriz terá para o resto da vida. “Desde que fiz o transplante já tive várias complicações que, inevitavelmente, me deixaram mais em baixo, e me fizeram questionar o que tinha feito. Tive uma rejeição, de segundo grau, que foi controlada, um linfoma não-Hodgkin, um pneumotórax… Não foram situações fáceis, e os tratamentos nem sempre são agradáveis, mas ainda nada me fez desistir. Acredito que, apesar de todas estas situações, os períodos estáveis compensam. Fiz a escolha certa quando decidi fazer o transplante”.

Depois do transplante, Beatriz deixou de se considerar doente: “Tenho uma amiga que diz que somos ‘doentes saudáveis’. Sinceramente não gosto desta expressão. Doente era antes do transplante. Agora tenho uma ‘condição’. Ela existe, mas não tem necessariamente de ser vista de forma negativa. O mais importante é que não nos impeça de viver a nossa vida. Estar com a família, com os amigos, trabalhar. Viver. Foi para isso que fiz o transplante”.

 

 


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